Durante minha carreira tive o privilégio de observar algumas vezes Garry Kasparov jogar. E em várias dessas partidas ele repetiu um ritual macabro (para os seus adversários).
Kasparov chega para jogar pouco tempo antes de começar a partida. Impecavelmente vestido, sempre de terno e gravata, passos rápidos, cara fechada. Cumprimenta o adversário, senta na cadeira. No pulso, um imponente e vistoso relógio. O homem exala energia, confiança. Parece um tubarão que sentiu cheiro de sangue.
Acho que muitos já sentiam vontade de abandonar ali mesmo. Sentado frente a frente com o Kasparov e ainda com aquele relógio observando todos os lances, todas as suas expressões, suas fraquezas.
O relógio voltaria a assombrar a maioria desses adversários. O décimo terceiro campeão mundial começava a partida com o relógio na mesa, encarando o oponente. Quando sentia que a partida estava no papo, recolhia o objeto e o colocava no pulso novamente, como se mostrasse o adversário que era hora de abandonar. Não é o mais simpático dos gestos, mas Kasparov e simpatia não caminham lado a lado.
O Kaspa tem uma fascinação com o tempo. Além do seu “relógio encantado”, seus livros têm como título “O Teste do Tempo” e “Meus Grandes Predecessores”. Além disso, parou de jogar muito novo – apenas 41 anos.
Uma outra coincidência (se é que isso existe): o ponto forte do Kasparov sempre foi o jogo superior em posições em que o fator “tempo” era o mais importante. Ele mesmo chama a atenção disso nos seus livros. O jogo com a iniciativa, os sacrifícios de longo prazo. A melhor partida dele nesse tema é a histórica vitória contra Karpov sacrificando um peão no lance 8, de pretas, e depois jogando como se nada tivesse acontecido.
O relógio sempre foi um motivo extra de pavor para os seus adversários. Mas, talvez, os lances no tabuleiro ajudassem também.
Crédito das imagens: Wikipedia
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