Um café da manhã com Vishy Anand

    Em 2006, passei um mês jogando torneios na Europa. Fui para Bélgica, Alemanha e Espanha. O mais marcante foi o evento em Mainz, na Alemanha. Era um tradicional torneio de rápidas e de Fischer Random (que também é chamado de Xadrez960 e em 2024 até mesmo de Xadrez “Freestyle”. Independente do nome, adoraria mais competições nessa modalidade).

     

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    No dia da primeira rodada, ao chegar no salão de café da manhã, qual não foi minha surpresa quando ninguém menos que Vishy Anand me convidou para sentar em sua mesa. Consegue imaginar como eu me senti? Ele estava acompanhado de Aruna, sua esposa. Cambaleando, ainda sem acreditar que ele estava realmente falando comigo, sentei-me à mesa.

    Eu havia jogado duas partidas contra o gênio indiano em 2004, quando ele esteve no Brasil. Mas não tive muito contato com ele e não imaginava que pudesse ser tão simpático. O meu amigo GM Giovanni Vescovi teve mais contato com o Anand, sendo convidado até mesmo para sessões de análises com ele e sua equipe de treinamento, fato que poucos sabem. Giovanni me contou também sobre a lendária habilidade do Anand jogando blitz.

    Leitao jogando com Anand

    Ao contrário do que muita gente acha, enxadristas não pensam apenas em xadrez. Anand tem uma cultura incrível, sabe muita coisa sobre o Brasil e é fascinado por astronomia e pelo Monty Python. Humildemente reconheço que estava em dificuldade em todos esses tópicos, já que não sei nada de astronomia e menos ainda de Monty Python (apesar de já ter visto alguns vídeos clássicos no YouTube, sendo este o meu favorito: https://www.youtube.com/watch?v=ohDB5gbtaEQ). Tentei levar o assunto para tópicos que sabia menos, mas pelo menos sabia alguma coisa, como Brasil e xadrez.

    Quando falamos também sobre xadrez, pude perceber a lendária velocidade de Vishy para calcular variantes e seu conhecimento enciclopédico de aberturas. Cresci lendo histórias fascinantes sobre essas habilidades, quando era criança estudava os artigos da New In Chess, que meu pai já assinava naquele tempo, e via partidas complexas que o Anand ganhava de renomados grandes mestres gastando menos de 10 minutos no relógio.

    Mesmo sendo um dos enxadristas mais talentosos da história, fanático do xadrez na modalidade blitz e não tendo uma formação clássica, afinal não nos esqueçamos que o xadrez na Índia ainda engatinhava e que ele foi o primeiro grande mestre do país, Anand sempre treinou com muita disciplina. Seu treinamento padrão mínimo era de 6 horas. Só talento não basta. Aliás, como o Kasparov já disse tantas vezes: “capacidade de trabalho também é um talento”.

    No excelente livro “The Anand Files”, publicado por Michiel Abeln em 2019, um minucioso relato é feito sobre alguns matches do Anand pelo título mundial e o trabalho meticuloso e cansativo realizado por seus analistas, que por vezes mal tinham tempo para dormir. Quem lê esse livro, cheio de histórias de bastidores, se dá conta do alto nível de exigência e profissionalismo que Vishy sempre teve.

    Queria poder agora dizer qual o segredo mágico que ele me contou para quem quer ser um grande jogador de xadrez. Mas não existe segredo, existe talento e, principalmente, muito estudo.

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