Existe Xadrez Sem Tabuleiro?

Existe Xadrez Sem Tabuleiro?

Existe Xadrez Sem Tabuleiro?

 

MI Renato Quintiliano

 

Confesso que escrevo esse post com certa preocupação, e na esperança de atingir o maior número de enxadristas possível, principalmente os da nova geração do xadrez brasileiro.

Na verdade, a motivação pro texto veio de uma descoberta recente feita em conversas com alguns novos alunos, que me deixou ao mesmo tempo surpreso e chocado: Hoje em dia as pessoas não estudam mais usando tabuleiro e peças! Parece estranho? Parece normal? Então vem comigo que eu explico.

Uma das facilidades de nossos tempos é o rápido acesso à tecnologia e à informação, o que torna muito mais fácil estudar e também praticar xadrez. Uma das provas disso é que nos últimos anos os clubes deram uma esvaziada, já que a internet possibilita tanto o acesso a um vasto material de estudo, como a prática de partidas online contra jogadores fortes de todo o mundo.

Como nem tudo são flores, há também alguns pontos negativos nessa facilidade toda. Eu já havia pensado que um sintoma negativo é que as pessoas poderiam ficar mais preguiçosas para estudar xadrez, pois o material é tão acessível, que elas acabam deixando sempre “pra depois”. Porém, para minha surpresa, há algo ainda pior se acontecendo: Com os vários sites para exercícios de tática, aplicativos, livros que podemos abrir diretamente pelo Chessbase, vídeo-aulas e outras facilidades, as pessoas estão deixando de estudar xadrez usando tabuleiro e peças!

Isso parece ainda mais frequente na geração mais nova, em que as crianças interagem com a tecnologia e seus recursos cada vez mais cedo. Essa é, parcialmente, a razão por surgirem tantos jovens talentos no xadrez mundial nos últimos anos. Mas é importante entender (e pais e professores devem sempre lembrar isso às crianças) que a tecnologia é uma faca de dois gumes: Se usada corretamente, é uma ferramenta importante que ajudará a melhorar seu xadrez, mas do contrário pode ser igualmente prejudicial.

Apesar de não pertencer a uma geração tão antiga assim, o fato de não ter um computador em casa na infância tornava o estudo do xadrez um trabalho bastante “braçal”: ir até o clube de xadrez, resolver exercícios no tabuleiro, anotar respostas no papel, copiar variantes de aberturas e partidas para estudar depois, etc. Assim sendo, ter o tabuleiro como companheiro de estudos foi algo que desenvolvi desde meus primeiros anos de xadrez, portanto me parece bastante surpreendente imaginar alguém estudando e treinando sem um.

 

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Como me vejo quando meus alunos mais novos dizem que não usam o tabuleiro para estudar

 

Se essa fosse apenas uma questão de gosto, não seria uma questão tão importante. Mas o assunto é muito mais sério: creio que há fortes evidências de que estudar e treinar sem usar o tabuleiro pode ser um método não apenas pouco efetivo, como até prejudicial para o seu xadrez. E a seguir explico algumas possíveis razões pra sustentar essa opinião.

 

1 – Simular Condições Similares às da Partida

Estudos indicam que a prática é um componente muito importante para uma melhor preparação e bons resultados em qualquer esporte. Mas há um detalhe: a prática sob condições mais parecidas possíveis com aquelas que você enfrentará em uma partida de torneio tende a ser mais efetiva. Praticar exercícios com peças, tabuleiro e relógio, é uma boa forma de imitar uma situação de torneio, e assim deixar sua mente mais acostumada com a sensação de estar jogando uma partida real. Claro que é um quadro bastante simplificado, mas ainda uma representação mais realista que a tela do computador ou do celular. Até mesmo a visualização do cálculo é muito diferente, já que durante a partida temos que usar nossa visão espacial em 3D para imaginar as posições surgindo enquanto calculamos, é um tipo de imagem completamente diferente da tela do computador. O cálculo é uma ferramenta tão importante no xadrez, presente em todos os estágios da partida, que pode ser comparado ao drible para um jogador de futebol. E você acha que o Neymar treina no campo ou só em casa, no vídeo-game?!

DICA: Use a tecnologia disponível a seu favor, mas apenas como uma forma de apoio. A forma mais efetiva pra praticar o cálculo continua sendo o bom e velho tabuleiro com as peças postas, quebrando a cabeça para encontrar variantes e melhorando sua visualização e senso tático.

 

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“Então, aí você faz o L do cavalo aqui ó, mate”

 

2 – Você Já Ouviu Falar Em Retenção da Informação?

Retenção da informação é, resumidamente, nossa capacidade de absorver e manter novas informações, para uso futuro. Quando estudamos xadrez, a retenção da informação é ainda mais importante, pois aprendemos uma série de conceitos, ideias e teorias que podem ser utilizadas em partidas futuras. E também aqui os estudos indicam que o tabuleiro é de grande ajuda aqui.

De acordo com pesquisas, você retém 20% do que ouve, 30% daquilo que ouve e vê, e 50% do que ouve, vê e pratica. Interessante, não!? Isso se dá porque quanto mais sentidos utilizamos para memorizar e assimilar uma informação, mais reforçamos essa informação na nossa mente.

Um exemplo simples porém muito instrutivo, e que alguns de vocês já devem ter vivenciado, é: Imagine que seu amigo está tentando te explicar como funciona uma abertura que você nunca jogou, e por mais que ele te explique os planos, ideias e jogadas, fica difícil entender facilmente às cegas. Porém, quando ele repassa as explicações, porém te mostrando as linhas e ideias no tabuleiro, fica muito mais claro, não é? Mas e se vocês forem mais adiante e, após as explicações, jogarem algumas partidas temáticas naquela abertura pra treinar, a sensação de entendimento e domínio das informações não é ainda mais forte? É a “magia” da retenção de informação ficando ainda mais forte, pois você trabalhou esse conteúdo usando vários sentidos, e assim esse novo conteúdo fica mais claro na mente.

DICA: Não basta só ver uma vídeo-aula sobre peão isolado, ou passar uma partida do Carlsen no Chessbase, e achar que entendeu tudo. Após assistir o vídeo, tente repassar no tabuleiro tudo que aprendeu, reproduza as partidas dos GM’s no tabuleiro, tente ver com seus próprios olhos o que eles viram ali, entender as variantes, procurar jogadas que não foram feitas na partida e calcular porque davam errado. Isso não só te fará entender melhor essas partidas e seus conceitos, como também vai te forçar a trabalhar suas habilidades no tabuleiro, seu cálculo, visualização, avaliação, e muitas outras coisas. Mais um ponto pro tabuleiro!

 

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“Tá bom Magnus, melhor você repassar no tabuleiro essa linha pra entender direito”

 

3 – Melhora no Foco

Um ponto que costumo dar bastante importância é a concentração nas partidas, como já disse no artigo sobre Como Gerenciar O Tempo Durante A Partida. Mas algo que gosto de passar pros alunos, é que a concentração é como um estado de espírito, é algo que você precisa treinar constantemente, e isso inclui manter o foco nos treinamentos e estudos. Você pode estar se perguntando “Ok, mas onde entra o tabuleiro nisso?” Pois bem, deixe-me explicar.

Hoje em dia nossa facilidade pra estudar xadrez foi reduzida a literalmente alguns cliques, o que, é claro, é ótimo. Porém, o ponto negativo é que o trabalho ficou fácil demais: Tudo que você precisa é dar play, colocar o fone e observar enquanto o GM da tela mostra a partida e explica tudo mastigado. Antigamente, era necessário passar a partida, parar nos momentos interessantes, encontrar as variantes “no braço”, ou, na melhor das hipóteses, ler os comentários do livro e tentar entender a posição. Note quantas etapas importantes do processo de aprendizagem foram cortadas com o advento da tecnologia, o fácil acesso à informação e um conteúdo mais objetivo. Você ainda pode estar pensando “ok, mas assim eu aprendo em menos tempo”, o que pode ser verdade, mas o ponto negativo é que toda essa facilidade acaba exigindo pouco de nós e da nossa concentração. A grosso modo, é como se não precisássemos mais pensar pra chegar às complexas conclusões do jogo, é só esperar a explicação do mestre na tela. E com isso temos mais facilidade de nos dispersar e perder o foco enquanto estudamos dessa maneira.

No tabuleiro, por outro lado, é diferente: Como já mencionado anteriormente, usamos mais sentidos para nos manter atentos às peças e à partida, o que consome mais energia e foco, e só de ter que cumprir as etapas – ler o livro – reproduzir os lances – olhar pra posição, já ficamos mais comprometidos com a partida, e assim podemos aprender muito mais.

Antes de escrever esse post fiz uma pequena pesquisa informal perguntando pra alguns alunos, amigos e jovens talentos do xadrez brasileiro, e alguns me disseram que têm simplesmente preguiça de montar o tabuleiro e as peças pra estudar. Não sejam assim crianças, afinal a preguiça é inimiga da perfeição! Ok, não era bem assim o ditado, mas eu gosto de uma frase e vocês entenderam.

Enfim, essas são algumas razões que encontrei, e pensei em compartilhar com vocês. Devemos ter sempre em mente que hoje em dia há muitas formas de se estudar xadrez, e que a tecnologia pode ser muito útil se usada a nosso favor, das mais variadas formas. Porém, a principal forma de estudo e aprendizado continua sendo o bom e velho par de amigos tabuleiro+peças. Portanto, tenha sempre os seus em mãos!

 

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Uma foto emblemática pra encerrar o artigo: o enxadrista que mais amou seu tabuleiro. Você sabe quem é ele? Deixe nos comentários!

 

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Comments ( 6 )

  • FERNANDO DORO

    Bob Fischer

    • FERNANDO

      Bobby Fischer ***

  • Hermenegildo Neto

    Esse foi o melhor artigo que já li no site do Rafael, pelo importante motivo de que estava enfrentando este dilema, estava na dúvida se devia usar apps como chess book study, e+chess books, forward chess, para ler livros, ou se deveria estudar livros “no braço” (ótimo termo haha), O artigo resolveu de uma vez por todas minhas dúvidas, de forma engraçada e convincente. De agora em diante vou usar tabuleiro e peças sempre, eu tinha a forte impressão de que era melhor, mas precisava que um jogador de alto nível confirmasse. Muito bem escrito! Pra mim este texto veio na hora certa, obrigado.

  • Janderson

    Excelente artigo, parabéns Quintiliano.

    O jogador da foto seria Robert James Fischer ? rs

  • Luiz

    EXCELENTE

  • Jair

    Robert James Fischer, é claro!!

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