O Aberto de Curitiba 2017 : A Visão de Renato Quintiliano

Artigo do MI Renato Quintiliano

Foi realizado, de 12 a 14 de maio, o Aberto do Brasil de Curitiba – IEP & Copel Telecom, torneio que deu duas vagas para a Semifinal do Campeonato Brasileiro e distribuiu R$ 10 mil em prêmios. A princípio esse torneio me chamou a atenção, pois a Federação Paranaense tem organizado grandes eventos no estado nos últimos anos, com boas premiações e condições de jogo para os participantes, como mostra a foto do local de jogos, o belo salão de eventos do Instituto de Engenharia do Paraná:

 

 

Entretanto, entrei em contato tarde demais com a organização, e devido a uma lista já com muitos MI’s e GM’s inscritos, não era possível para eles me oferecerem condições no torneio, o que inviabilizaria minha participação. Já estava conformado com isso quando, de maneira inesperada, uma desistência na lista fez com que me enviassem um convite de última hora, que pronto aceitei, animado com a possibilidade de me recuperar de um desempenho bastante abaixo do esperado apenas dez dias antes, no Zonal 2.4, em Florianópolis. Para um enxadrista profissional, é sempre um golpe duro ter um resultado ruim em um torneio, ainda mais em um importante, mas a melhor forma de se recuperar é indo bem no torneio seguinte.

 

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O Torneio

Chegando em Curitiba, eu era o terceiro pré-rankeado na lista inicial, atrás do GM Neuris Delgado(2603) e do MI Diego Di Berardino(2494), também estavam presentes os GM’s José Cubas(2468) e o campeão brasileiro, Everaldo Matsuura(2481). A organização do torneio realmente seguiu o padrão que estamos nos acostumando a ver nos torneios da FEXPAR: local de jogos amplo e aconchegante, quase nenhum barulho durante as rodadas, canetas disponibilizadas pela organização, enfim, tudo que propicia um ambiente excelente para a prática de nosso jogo.

Uma coisa interessante que notei no torneio foi o grande número de crianças participando do torneio, inclusive muitas meninas, e muitos jogadores jovens aproveitando seu fator “k40” para ganhar bastante rating. Desses pequenos talentos, me chamou a atenção o catarinense sub-14 Nathan Filgueiras (1998), que ganhou 55,6 pontos, vencendo uma boa partida na última rodada, contra o MF alemão Georg Von Buelow (2374). É realmente impressionante a coragem que as brancas mostram conduzindo o ataque contra um adversário de quase 400 pontos a mais:

Filgueiras, Nathan  x Von Buelow, Georg

 

 

Quando se ganha um torneio, uma pergunta comum que as pessoas fazem é quando você “sentiu” que seria campeão. A experiência tem me mostrado que na verdade a gente nunca “sente” que vai ganhar um torneio, mas existem alguns momentos pontuais que podem dar mais confiança em nosso jogo e nos mostram que estamos em boa forma. Após começar com duas vitórias, esse momento surgiu na terceira rodada, na seguinte posição, de brancas, contra o MF Haroldo Cunha(2209):

 

Quintiliano x Cunha


As brancas possuem já uma grande vantagem posicional, devido ao peão adversário fraco de e6, as fraquezas crônicas nas casas pretas e o bispo mau de c8. As pretas pretendiam montar uma defesa passiva, porém sólida, com Bd7-Tad8-Bc8, e pensando nisso joguei  18. Ce5! sacrificando um peão de forma bastante temática, pra dificultar o plano de defesa adversário Dxd4 (18… Bd7? 19. Cxd7 Cxd7 20. Bxe6+ +-; 18… Cd7 19. g3! Dg5(19… Dxd4? 20. Tad1+-) 20. Cxd7 Bxd7 21. Db3+-)) 19.b4 Dh4 20. Tad1. As brancas tem excelente compensação pelo peão, além da possibilidade de invadir a posição adversária pela coluna aberta, e acabaram vencendo sem muita dificuldade. Isso foi um bom sinal para mim, que não havia feito nenhuma partida tão boa no último torneio, e senti que nesse já estava jogando bem outra vez. Isso foi na primeira partida do segundo dia, e na rodada seguinte também venci, de pretas contra o MF Paulo Palozi(2314).

 

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O Último Dia

No terceiro e último dia, comecei empatando uma partida interessante pela rodada da manhã com o GM José Cubas(2468), e antes da última rodada, compartilhava o primeiro posto com outros quatro jogadores: Di Berardino(2494), Perdomo(2462), Cubas(2450) e Delgado(2603). Jogar contra qualquer um desses adversários de pretas não seria tarefa fácil, mas nesse ponto eu estava satisfeito com meu torneio, havia feito boas partidas até então e esperava lutar bem na última, pois havia chances de ser campeão com a vitória. Emparceirado contra Di Berardino(2494), que sempre tem sido um adversário duro pra mim, com seu estilo clássico e bastante sólido, tive que encontrar meus melhores recursos pra manter o jogo vivo em uma partida tensa onde era muito difícil manter o controle da posição em vários momentos. Apesar de não ter jogado muito bem tecnicamente, fiquei feliz por ter colocado problemas práticos na maior parte do tempo que dificultaram a exploração da vantagem por parte do meu adversário. Com o tempo diminuindo e as opções não sendo tão claras, as brancas evitaram uma variante de empate (na verdade ganhadora, porém ambos furamos um lance) para entrar em um final onde eu sentia que o pior já havia passado. Com o apuro de tempo e a definição eminente da partida, meu adversário cometeu um erro grave, talvez seu único na partida, mas consegui aproveitar essa chance e marcar o ponto inteiro. A partida toda é bastante interessante:

(Partida com Diego)

 

Ao final, empatado em pontos com o GM Delgado (5,5), venci nos critérios por 0,5. Maneira dramática de vencer um torneio! E também uma ótima forma de recuperar um mau resultado recente. Por mais que às vezes alguns resultados sejam ruins, nunca esqueçam: o importante é a luta!

 

Escrito por Renato Quintiliano em 22.05.2017

 

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One Reply to “O Aberto de Curitiba 2017 : A Visão de Renato Quintiliano”

  • Victor Cavinato Moura

    Quintiliano,

    Obrigado por compartilhar a analise tão bem detalhada e alem disso as motivações pra tomada de decisões ao longo da partida.

    Parabens pelo torneio e pelas análises

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