Campeonato Mundial: Carlsen x Karjakin – Estatísticas e Previsões

Está chegando a hora da tão aguarda disputa pelo título de Campeão Mundial de Xadrez – o evento mais esperado do mundo enxadrístico acontecerá de 11 a 30 de Novembro na cidade de Nova York.

 

E o match pela coroa mundial entre o atual campeão mundial, o norueguês Magnus Carlsen (2853), e o desafiante, o russo Sergey Karjakin (2772), continua atraindo todo tipo de atenções.

 

Por exemplo: os mais badalados sites de apostas do mundo.

 

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Num conceituado site de apostas como o Pinnacle.com, o campeão mundial lidera as probabilidades com 69% contra 31% de Karjakin. A margem de lucro para as apostas é, nos maiores valores, de U$ 1,31 para Carlsen e U$ 4,88 para Karjakin. Noutro site, o Sports.bwin.com, a variação é de U$ 1,20 para Carlsen e U$ 4,25 para Karjakin. E você pode apostar não só no resultado do match, mas também em quantas partidas cada um irá vencer; quantas partidas cada um irá vencer de brancas ou de pretas; quantos empates acontecerão; etc. Pois é. Dá para se apostar em – quase – tudo a respeito do match.

 

Contudo, falando enxadrísticamente, talvez as coisas fiquem um pouco mais palpáveis.

Sergey Karjakin (nascido em 12 de janeiro 1990 em Simferopol, Ucrânia) e Magnus Carlsen (nascido em 30 de novembro de 1990, em Tonsberg, Vestfold, Noruega) são, sem dúvidas, dois prodígios do xadrez. Karjakin tornou-se Grande Mestre com a idade de 12 anos e 7 meses – recorde que até hoje não foi batido. Já Magnus Carlsen foi “um pouco mais lento” para ganhar o título de GM: 13 anos, 4 meses e 27 dias (o que fez dele o terceiro GM mais jovem de todos os tempos. O indiano Parimarjan Negi, cinco dias mais jovem que Carlsen, detém o segundo lugar).

 

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Eles não são fofinhos?

 

Contando todas as partidas jogadas entre ambos, independente do ritmo, o placar favorece Carlsen: 7 vitórias do norueguês, 5 vitórias do russo e 18 empates. Mas se formos contar só o ritmo clássico (pensado), a situação complica-se um pouco mais para o desafiante:  4 vitórias de Carlsen, 1 vitória de Karjakin e 15 empates.

 

A primeira partida entre ambos aconteceu no dia 18 de Janeiro de 2005. No Grupo-B do Torneio Corus em Wijk aan Zee, na Holanda. Carlsen, com 2533, e Karjakin, com 2599, fizeram uma interessante e violenta partida. Violenta, sobretudo, por parte de Carlsen que estava de brancas. Apesar das aventuras, a partida terminou empatada.  E o empate foi o resultado dos próximos quatro jogos entre eles.

 

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Mas foi somente em 2010, e, ironicamente, no mesmo Corus, que a primeira vitória no “match pessoal” entre eles saiu. Carlsen, que havia recentemente rompido a barreira dos 2800 (2810, para ser mais exato), de pretas, surpreendeu Karjakin, então com sólidos 2720, utilizando a Defesa Francesa (raríssima no repertório do norueguês). A surpresa na abertura, e um jogo energético de Carlsen, foram decisivos.

 

A vingança de Karjakin, e única vitória do russo em cima do norueguês, ao menos no ritmo clássico, aconteceu após de três empates. O palco, mais uma vez, foi a cidade de Wijk aan Zee. Mas desta vez o evento foi o fortíssimo Tata Steel em 2012. Carlsen, de brancas, com 2835 e Karjakin, 2769, já eram, praticamente, os jogadores que conhecemos hoje. Nesta partida foi o jogo ativo e preciso de Karjakin, além de algumas imprecisões de Carlsen, que definiram o placar.

 

Três anos e dois empates depois, no Tata Steel de 2013 (esses caras só jogavam para vencer na Holanda? O match poderia ter sido feito lá…), Carlsen desequilibrou o marcador. De brancas, e no estilo de jogo que é sua marca registrada. Uma abertura sem grandes pretensões, mas com um cálculo profundo e uma pressão constante. Carlsen ia reafirmando ainda mais a sua era. Fato que foi definitivamente escrito naquele ano após a conquista do título mundial do jovem norueguês em cima do experiente Anand. Habbemos Carlsen. Inclusive, ainda em 2013, mas no Norway Chess, Carlsen marcou mais um ponto contra Karjakin – embora, desta vez, de pretas e tendo saído inferior da abertura, mas demostrando outra qualidade que lhe é fundamental: a tenacidade.

 

Mas somente após cinco empates Carlsen voltaria a vencer Karjakin. E apenas depois que este já havia conquistado o direito a ser o próximo desafiante ao título. A vitória veio no Bilbao Master deste ano. E mais uma vez fugindo da teoria pesada, embora não caindo em sutilezas posicionais, mas através de um forte ataque. Por fim, ainda no mesmo torneio, houve tempo para mais um empate ser selado entre os competidores.

 

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Todavia, será que este retrospecto é suficiente para apostarmos todas as nossas fichas em Carlsen? Difícil dizer. O escore pessoal entre eles favorece Carlsen? Sim. Karjakin não teve grandes atuações nos últimos torneios que disputou? Questionável. A vitória “sozinho” contra a seleção chinesa; a vitória na Copa do Mundo (um torneio muito longo e demasiadamente nervoso) e num final dramático contra Svidler; além da própria conquista no Torneio de Candidatos, qualifica, sem nenhuma dúvida, Karjakin para a disputa do título mundial. Como dissemos logo após a conquista do GM russo – e avaliando o seu desempenho durante a disputa:

 

Sobre o campeão do Torneio e próximo desafiante ao título mundial, Sergey Karjakin, é, obviamente, difícil contestar sua vitória. Aqueles que desejam um confronto de Caruana e Carlsen, apostavam no interessante embate entre dois estilos mais distintos – o, digamos, técnico de Carlsen e o agressivo de Caruana. Karjakin, neste meio, poderia lembrar, de longe (talvez bem de longe), aquela famosa máxima do pensador contemporâneo Galvão Bueno sobre algum time de futebol europeu (normalmente a Alemanha): “eles não jogam futebol. Jogam algo próximo ao futebol. Mas que dá certo”. O Jogo de Karjakin não é daqueles que arrasta multidões e gritos de olé. Mas, do que adiantaria ser mais emocionante como um Nakamura e perder? Máxima por máxima, vale mesmo a do ex-campeão mundial Tigran Petrosian sobre questionado sobre a falta de ‘linhas interessantes’ em suas partidas: ‘Eu poderia ser mais interessante. E perder’. Além do mais, esta visão pragmática sobre o jogo de Karjakin nos parece, de certa forma, equivocada. Olhando em retrospectiva, o russo demostrou desde o início não só uma força de vontade considerável e desejável para um desafiante ao título, além de um xadrez muito interessante – fugindo da teoria mais pesada, mas sem deixar de criar posições atraentes. A vitória de Karjakin em cima de Anand na quarta rodada (junto com os confrontos diretos contra o concorrente Carruana) foi, sem dúvida, um dos seus melhores momentos no torneio (na partida seu 9.h4 pode não ter causado gritos de olé, mas com certeza levantou a torcida) […] E, ironia do destino, a segunda partida entre Karjakin e Caruana calhou de ser na última rodada e, com isso, deixando a disputa pela vaga de desafiante ainda mais emocionante – partida ao melhor estilo “o vencedor leva tudo” (já que para Caruana, de negras, só lhe interessava a vitória). E foi bonito de ver: Karjakin não se ‘escondeu’ e jogou 1.e4 – prontamente respondido com 1… c5. Nas palavras do nosso GM Leitão: ‘O Torneio de Candidatos 2016 teve um final épico e um merecido vencedor. Os deuses do tabuleiro deixaram, como que por um capricho, o encontro decisivo entre os líderes para a última rodada. E que partida! Caruana complicou o jogo, escolhendo uma complicada variante da Siciliana. E conseguiu o tipo de posição que queria: tensa e desequilibrada’. Nesta partida Caruana mereceu, pelo espírito de luta demonstrado, levar o ponto e a vaga. Mas Karjakin mereceu ainda mais: o golpe final realizado no apuro de tempo (37.Txd5!) não deixou dúvida de quem, pelo bem ou pelo mal, deveria ser o desafiante.

 

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Seria mais interessante um match de Carlsen contra Nakamura, Caruana – ou mesmo os experientes Kramnik, Aronian? Sem dúvida. Mas desmerecer a chance de Karjakin em lutar pela coroa é, no mínimo, um pouco injusto.

 

Na entrevista que apresentamos recentemente, Karjakin mostrou uma confiança considerável. Mas que não poderia ser diferente para alguém que vai disputar o título mais importante de seu esporte. Preocupado não só com as partes técnicas do jogo, o GM russo também apresentou cuidado especial o preparo físico, além dos aspectos psicológicos. Inclusive, a entrevista concedida não deixar de compor uma parte do jogo psicológico típico destas situações. Já que não temos uma “pesagem” antes da disputa, a exemplo do boxe ou do moderno MMA, a “língua” acaba fazendo o papel das encaradas e caras feias do pré-luta.

Neste quesito Karjakin pareceu estar em dia: a confiança andou junta com a provocação sutil e a transferência de responsabilidade para o campeão mundial.

 

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Dados, apostas, retrospectivas, score e jogos psicológicos. O Campeonato Mundial, de certa forma, já começou. Mas de que valerão números e estatísticas, ali, frente a frente, diante do tabuleiro? Vale a máxima do eterno campeão mundial Emanuel Lasker (1868-1941):

 

“Diante do tabuleiro, a mentira e a hipocrisia não sobrevivem por muito tempo. A combinação criadora desmascara a presunção da mentira, os impiedosos fatos, que culminam no mate, contradizem o hipócrita”.

 

E você? O que acha?

 

FONTES:

SportBwin

Pinnacle

 

Escrito por Equipe Academia de Xadrez Rafael Leitão 16-10-2016

8 Respostas a “Campeonato Mundial: Carlsen x Karjakin – Estatísticas e Previsões”

  • Fábio Campos

    Muito bom mesmo!

  • Anderson Costa

    Grande texto!! o desafiante têm seus méritos e merece respeito!

  • Fernando Johashi

    Estou torcendo para Carlsen , tentarei assistir todas as partidas

  • Hugo

    Karjakin é ucraniano!

    • Rafael Leitão

      Ele joga pela Rússia já faz algum tempo. Aliás, ele mesmo já declarou que se sente mais russo do que ucraniano.

  • PAULO

    EU ACHO QUE AS APOSTAS NÃO CORRESPONDEM AO REAL DO QUE SERA O MATCH. VOU TORCER PARA O CARLSEN APESAR DE SER FÃ DA ESCOLA SOVIÉTICA, MAS O CAMPEAO NAO TERA VIDA FÁCIL, POIS VENDO O RAIO X DAS PARTIDAS ENTRE OS DOIS VEMOS ALGUMAS PARTIDAS ONDE KARJAKIN FOI AMPLAMENTE SUPERIOR. BOA SORTE AO CAMPEÃO E BOM MATCH PARA TODOS OS AFICCIONADOS!

  • Leandro

    Torcendo pra Karjakin
    os russos sempre e sempre
    Se ele tem em sua equipe de seconds o Kramnik, certamente vai vencer.
    Se não tem, vai ficar muito complicado.

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