A História Dos Campeões Mundiais Não Oficiais

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Grandes Enxadristas: A História Antes De Steinitz

Wilhelm Steinitz foi o primeiro campeão mundial de xadrez, conquistando o título em 1886. No entanto, o xadrez é muito mais antigo e outros jogadores foram, claramente, os melhores de sua época. Esses enxadristas, não menos destacados, são conhecidos como “campeões sem coroa”. Conheça-os no artigo de hoje.

 

Greco

O italiano Gioacchino Greco foi o destaque do século XVII. Naquele período, a técnica enxadrística baseava-se em ataques diretos contra o rei, sem a devida preocupação com  o desenvolvimento e com as estruturas de peões. De todo modo, mesmo tendo vivido apenas 34 anos, (1600 – 1634), Greco fez importantes descobertas na Abertura Italiana.

 

Philidor

“L`analyse du jeu des Échecs” de Philidor

 

Compositor musical prestigiado, François André Danican Philidor (1726 – 1795) foi o fundador da Ópera Cômica na França. Frequentava o Café de La Régence, em Paris, onde mostrava sua força no xadrez. Sua superioridade aos rivais era tão grande, que poderia jogar contra eles dando material de vantagem. Sua maior contribuição ao desenvolvimento da técnica no xadrez foi o livro: “L`analyse du jeu des Échecs”, onde pela primeira vez foi visto o termo “plano”, tão natural para os jogadores de hoje.

Em comparação com o pensamento predominante do momento (Escola Italiana) a frase de Philidor: “Os peões são a alma do xadrez”, foi uma revolução na forma de pensar o jogo. O enxadrista também foi o primeiro a dar a importância ao desenvolvimento de todas as peças e a fazer estudos sobre finais.

Na opinião de Kasparov: “O Grande Mestre francês estava tão à frente do seu tempo que ninguém conseguia jogar com êxito de acordo com a maneira proposta por Philidor. O mundo do xadrez não estava preparado para absorver os princípios gerais de jogo posicional, sobre tudo em posições fechadas”.

 

Os primeiros confrontos

La Bourdonnais x McDonnell

 

La Bourdonnais

 

La Bourdonnais

O francês Louis Charles Mahé de La Bourdonnais (1795 – 1840) era de uma família nobre que acabou perdendo todas as riquezas. Isso o obrigou a ganhar a vida como jogador de xadrez, uma ocupação ingrata mesmo para os melhores enxadristas da época. Em 1824, foi até Londres e venceu todos os rivais, sendo proclamado o melhor enxadrista da Europa. La Bourdonnais leu a obra de Philidor e em 1833 publicou um novo manual: “Novo esboço do jogo de xadrez”, o qual ensinava questões importantes sobre como calcular variantes. Em 1836, o enxadrista fundou a primeira revista apenas sobre xadrez: “Le Palamede”.

Já o irlandês Alexander McDonnell (1798 – 1835) era um enxadrista amador, secretário de uma associação de comerciantes com a Índia, porém, com alto nível combinativo. O organizador do match entre ambos era o fundador do Clube de Xadrez de Westminster, em Londres. A disputa aconteceu entre 1834 e 1835 com vitória de La Bourdonnais com 45 vitórias, 27 derrotas e 13 empates. No entanto, outras fontes dizem que foi 44 vitórias, 30 derrotas e 14 empates.

 

Para Kasparov, “La Bourdonnais jogava com maior profundidade que o oponente, detectando questões estratégicas que McDonnell não estava consciente. Isso foi, em última instância, o que decidiu o match a favor do francês”. Infelizmente, ambos morreram, precocemente, pouco tempo após o duelo.

 

Howard Staunton x Pierre Charles de Saint-Amant

Após La Bourdonnais e McDonnell, a rivalidade Inglaterra e França se renovou com esses dois jogadores. Howard Stauton (1810 – 1874) era um homem de várias funções: erudito especializado em Shakespeare, foi o fundador da revista “Chess Player’s Chronicle” e  colunista de xadrez do jornal Illustrated London News. Além disso, escreveu quatro livros de xadrez e adotou as famosas peças “Staunton”, que até hoje são utilizadas em torneios de todo o mundo.

Pierre Charles de Saint-Amant (1800 – 1872) era um comerciante de grande reputação e, assim como Philidor, era frequentador do Café de La Régence, em Paris. Também era o representante da França para assuntos sobre o xadrez internacional.

Depois de negociações complexas, tudo se encaixou para o match entre ambos iniciar em novembro de 1843. As partidas aconteceriam no Café de La Régence, onde havia um grande público. Seria declarado vencedor o primeiro que vencesse 11 partidas. Os franceses estavam confiantes na vitória, pois Saint-Amant havia derrotado Staunton por 3,5 x 2,5 poucos meses antes.

No entanto, para a surpresa de todos, Staunton começou arrasador: sete vitórias e um empate. O inglês manteve a vantagem até finalizar o confronto com 11 vitórias, seis derrotas e quatro empates. Após a derrota de McDonnell, os ingleses tinham dado o troco nos franceses. Após o duelo, Staunton também venceu Bernhard Horwitz (+14 – 7 = 3) e Daniel Harrwitz (+12 – 9 = 1), o que reforçou sua reputação de melhor jogador do mundo.

 

Anderssen

Anderssen, Saint-Amant e Harrwitz

 

Em 1851, Staunton conseguiu realizar um torneio com os melhores enxadrista da Europa, pois na América não havia nenhum nome destacado no período. Eram 16 jogadores e o formato de disputa foi no sistema eliminatório. Por decisão da Sociedade Enxadrística de Berlim, Adolf Anderssen (1818 – 1879), seria o representante local. Na semifinal, o enxadrista alemão superou Staunton por 4 x 1 causando espanto em todos. Anderssen também não teve problemas para vencer Wyvill na final.

Staunton pediu um match revanche, mas logo ficou doente e o duelo acabou não acontecendo. Adolf Anderssen era professor de matemática e de alemão e pouco saía da sua cidade natal (Breslau – atualmente Wroclaw, na Polônia). Entre 1842 e 1852  escreveu uma coleção com o título “Problemas para o jogador de xadrez”. Também foi redator de duas revistas alemãs e curiosamente, após vencer em 1851, só jogou duas partidas sérias nos sete anos seguintes.

Em 1866, Anderssen ainda estava em boa forma ao jogar um match impressionante com Steinitz (+6 – 8). Já em 1870, venceu o torneio de Baden, na Alemanha, ganhando o encontro individual com Steinitz.

 

Morphy

 

Paul Charles Morphy (1837 – 1884) nasceu em Nova Orleans, estado da Luisiana, nos Estados Unidos. Aprendeu jogar xadrez com a família e, desde muito novo, já era considerado um prodígio. Tinha uma memória fascinante e dominava o inglês, o francês, o alemão e o espanhol. Leu o livro de Philidor assim como as revistas La Régence e as publicações de Staunton e Anderssen.

Após vários êxitos nacionais, Paul queria enfrentar o melhor enxadrista dos anos 1840 e convidou Staunton para vir à América. Este rejeitou o convite e então Morphy partiu para a Europa. Depois de algumas negociações, o match com o campeão inglês, de então 48 anos, não aconteceu.

Fischer opinou sobre o assunto: “Staunton temia, pelo visto, jogar com Morphy e creio que seus temores eram fundados. Morphy lhe teria ganho, porém, não seria fácil como muitos escritores acreditam, pelo contrário, seria uma grande luta”.

Em setembro de 1858, Morphy chegou a Paris e venceu o campeão francês, Daniel Harrwitz (+5 -2 =1). O match em realidade não terminou, pois o francês ficou doente e o árbitro finalizou a disputa. Com a premiação, Morphy ofereceu pagar as passagens de Anderssen de Breslau a Paris para um duelo amistoso. Como era professor, Anderssen alegou que só poderia ir em dezembro. Enquanto Anderssen não chegava, Morphy enfrentava com êxito Saint-Amant e Arnous de Riviere.

Quando o enxadrista alemão chegou a Paris, Morphy o recebeu com um empate e cinco vitórias consecutivas. O match estaria encerrado quando um enxadrista alcançasse a sétima vitória. Ao vencer o 11º confronto, Paul finalizou o duelo com sete vitórias, duas derrotas e dois empates. Anderssen reconheceu a superioridade do rival: “Para mim, lutar contra esse homem é inútil, dada sua tremenda força”.

Quando voltou aos Estados Unidos, Morphy foi recebido por 2 mil pessoas e quando o enxadrista apareceu em uma enorme sala, o hino nacional foi tocado. Pela primeira vez na história, um enxadrista foi recebido como um herói nacional. Lamentavelmente, Morphy abandonou o xadrez pouco tempo depois. No verão de 1884, o enxadrista morreu aos 47 anos.

 

Você conhecia a história dos primeiros enxadristas destacados? Quem foi o melhor? Deixe sua opinião nos comentários.

 

Referências Bibliográficas: “Meus Grandes Predecessores – Volume I”, Garry Kasparov.

 

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Comments ( 4 )

  • Leandro

    O melhor é meu eterno Anderssen….
    Tive um sonho uma vez em que ele me explicava o porquê de ter perdido umas 35 partidas pro Eichenborn, disse que os dois eram amigos na universidade (professores).
    Achei bonito demais …. e acredito que Eichenborn era o sparring, onde Anderssen testava seus ataques mirabolantes.
    Como quem anotou tudo foi seu “amigo”, a gente só conhece um lado da moeda.
    No sonho conheci também Eichenborn.
    O dito sonho não foi por acaso, sou um fanático por Kramnik e Anderssen, quando vi na base de dados as derrotas, fiquei muito deprimido e não dormi….
    No dia em que consegui dormir, tive essa revelação…. 😀
    Depois de muito tempo vi uma história semelhante a do meu sonho pela internet (dados sobre esse tal Eichenborn é praticamente impossível achar)
    🙂

  • Diego De Fraga

    Morphy

  • Jorge

    Paul Morphy

  • Jose Renato Vieira

    Paul Murphy sem dúvida foi o melhor de todos estes porem sou fã do Andersen. Seus ataques e combinações me fizeram estudar mais e enxergar o xadrez como uma obra e arte também.

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