Indiano é Pego Trapacendo em Nova Deli

E malandro é malandro
E mané é mané
Podes crê que é
(Bezerra da Silva)

Às vezes por um cego desejo de vitória; noutras vezes apenas um ego exageradamente inflado – que não consegue aceitar a derrota. Além desses, talvez muitos outros são os motivos que levam um esportista, profissional ou não, a trapacear. Quem não se lembra do famoso gol de mão de Maradona em 1986 contra a Inglaterra? “Lo marqué un poco con la cabeza y un poco con la mano de Dios” (“Jeitinho argentino” também existe, por supuesto). Ou então, em outro caso, o ciclista norte americano Lance Armstrong que em 2012, alguns anos após encerrar sua carreira esportiva, perdeu todos os títulos obtidos depois de 1998 e foi banido do ciclismo competitivo pela União Ciclística Internacional, em razão do uso de dopagem bioquímica (aliás, falando em dopagem bioquímica, Maradona, na Copa do Mundo de 1994…).

trapaça no xadrez

Mas, em suma, mesmo o xadrez sendo considerado “o Jogo dos Reis” (referência, claro, não apenas às peças que o compõem, mas, sobretudo, à rígida e cordial conduta que deve haver entre os jogadores), infelizmente, não estamos isentos das trapaças (embora, ao menos até agora, ela não aconteça através do uso de substâncias química. Ou já acontece?). Em tempos em que os nossos celulares podem ser tenazes, e até mesmo já imbatíveis adversários, em alguns casos, eles também acabam sendo valiosos companheiros – mesmo que ilegais.

Em seu livro How to Cheat a Chess, de 1977, o GM alemão Bill Hartston escreveu algo do tipo: “Se Deus quisesse que não analisássemos os nossos jogos no banheiro com aparelhos eletrônicos, não teria nos dado papel para tomar as notas”. Verdade ou não, talvez possa ser o que pensaram os integrantes da Equipe Francesa nas Olímpiadas de Khanty-Mansiysk, na Rússia, em 2010. O MI Cyril Marzolo foi acusado de transmitir, através de mensagens de texto, lances analisados por computador para o GM Arnaud Hauchard (capitão da equipe) que, por sua vez, repassava os lances para as partidas do GM Sebastien Feller (mais detalhes da “novela” aqui).

Grandes eventos da história do xadrez

Este é um exemplo, grande, dentre alguns outros que podemos encontrar por aí – afora acusações que, neste caso, também são muitas. E curiosas. E até entre os Tops. Recuando um pouco, mas não muito, no tempo, é o caso do match pelo Campeonato Mundial de 2006, em Elista, entre Kramnik e Topalov. Topalov, através do seu segundo o GM Silvio Danailov, acusou os lances de Kramnik de estarem muito em sintonia com os lances propostos pelos computadores, pedindo, portanto, que o GM russo fosse acompanhado por alguém em suas idas (constantes, segundo Danailov) ao banheiro (mais detalhes aqui). Todavia, nada provado, e a intimidade de Kramnik preservada, “segue o jogo” (como dizem, ou sinalizam, nossos árbitros de futebol) – e deu Kramnik.

E já que recuamos um pouco no tempo, não custa nada recuarmos um pouquinho. O mitológico match entre Fischer e Spassky, em Reykjavik, em 1970, foi repleto de acusações – e de ambos os lados (algumas sérias, outras mais paranoicas).

fischer x spassky

Durante a 17º partida, quando o placar mostrava 10 a 7 para Fischer, os russos acusaram os americanos de estarem usando “dispositivos eletrônicos” e “uma substância química” para atrapalhar Boris Spassky (Substância química? Seria o doping que estávamos procurando? Evidentemente que não, pois este seria o caso de uma alteração que prejudica o adversário e não que melhora as qualidades do trapaceiro. É similar ao que aconteceu com um jogador de futebol da nossa seleção, o lateral Branco, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 1990 entre Brasil e Argentina. Branco acabou tomando água com sonífero. E adivinha quem foi que ofereceu a bebida para o desportista? La Mano de Dios, pero, la cabeza del diablo…). Enfim, a cadeira de Fischer acabou sendo examinada e, finalmente, encontrou-se uma prova: uma mosca morta. Mas, infelizmente, a autópsia da mesma não foi conclusiva (é o que mais ou menos relata, ironicamente, Kasparov no 4º volume de Meus Grandes Predecessores).

Mas como já deve haver dito algum historiador, a história é contada através dos triunfos dos grandes homens. Ou quase. É o que prova a história do jovem indiano Dhruv Kakkar, de 19 anos, elo 1517. Em reportagem para o jornal indiano The Hindu, Rakesh Rao, jornalista e jogador de xadrez, conta que Kakkar passou a chamar a atenção do GM Praveen Thipsay, durante a quinta rodada do aberto Dr. Hedgewar, em Nova Deli, na semana passada.

Mesmo com 900 (!) pontos de diferença entre Kakkar e o GM Thipsay, o jovem venceu o grande mestre – numa longa partida que durou 87 lances. Contudo, além dos lances precisos de Kakkar, sua postura chamou a atenção do GM – que, em seguida, avisou o árbitro do torneio.

trapaça xadrez

“Ele necessitava de aproximadamente 2 minutos para cada movimento e não importava se se tratava de um movimento complicado ou de simplesmente retomar com um peão em uma simples troca de peças”, disse Thipsay ao jornal indiano. “Informei ao árbitro de minhas suspeitas, mas esse queria que eu continuasse jogando. Depois de 29 lances eu já possuía uma posição claramente perdedora e ofereci empate. Meu adversário recusou a oferta. Minha suspeita se confirmou quando Kakkar não conseguia encontrar algumas variantes simples para ganhar a partida e várias vezes eu tinha a impressão que antes de realizar seu movimento ele preferia esperar alguma confirmação para saber que estava bem”.

trapaça torneio xadrez

Depois da partida Kakkar foi levado até a sala onde estava a equipe de arbitragem do torneio e a trapaça foi descoberta. O jovem indiano portava dois celulares escondidos em seu corpo. Um dos celulares ficava fixado na perna e um microfone no ouvido esquerdo (numa complexa “parafernália” que incluía também fios e baterias presas ao cinto de sua calça). Em seguida Kakkar confessou que estava usando o dispositivo desde o início do torneio. “Inventei isso junto com um amigo e praticamos durante três dias antes de utilizarmos no torneio”, explicou e confessou o jovem enxadrista indiano.

Obviamente que Kakkar foi expulso do torneio e o acontecimento, que será levado para a Federação Indiana de Ajedrez, ganhou (não bem como queria Kakkar), o mundo. Malando é malandro, e mané é mané…

 

Fonte: ChessBase.

 

Escrito por Equipe de Xadrez Rafael Leitão em 07.05.2015.

 

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