Copa do Mundo de Xadrez: Festa do Povo, “Happy Chess” e a Queda dos Grandes

Copa do Mundo de Xadrez: Festa do Povo, “Happy Chess” e a Queda dos Grandes

Escrito pelo MI Renato Quintiliano

 

Nota do GM Rafael Leitão: Esta crônica foi escrita antes da definição dos semifinalistas.

 

A Copa do Mundo é um dos meus torneios preferidos, sempre faço questão de acompanhar e espero um dia estar lá, jogando, pra sentir na pele. O formato é único: 128 jogadores se enfrentam em mini-matches de 2 partidas alternando as cores, num sistema mata-mata.

Se os matches empatarem, há sempre o dia do desempate em partidas rápidas, semi-rápidas, blitz, e até armageddon se necessário. O dia dos desempates sempre reserva as maiores emoções.

É um torneio sobretudo longo, uma maratona física também, onde os momentos de tensão e cansaço extremo revelam que até os melhores do mundo são humanos e podem cometer erros “infantis”(para nós, sentados no nosso conforto, assistindo a partida com a avaliação do computador ligada). Basta lembrar a final da última edição entre Svidler e Karjakin, que foi recheada de drama e tensão, e terminou selando o destino de Karjakin rumo ao Torneio de Candidatos, que mais tarde lhe daria o direito de desafiar Magnus Carlsen.

 

 

Magnus Carlsen que, aliás, era a grande novidade desse ano: a primeira vez que o atual Campeão Mundial participava de tal torneio. Enfim, são muitas coisas que tornam a Copa do Mundo um torneio diferente e especial, uma atração à parte. Por mim tinha todo ano.

 

1ª Fase: Desembarque Em Massa Dos Latinos E A “Zebra Solitária” Eljanov

O sistema de emparceiramento da Copa do Mundo é diferente do que estamos acostumados: o número 1 enfrenta o 128, o número 2 o 127, e assim por diante. Por conta disso, os confrontos tendem a ser um pouco desiguais na primeira rodada, o que dá menos margem para resultados inesperados.

Mas quem disse que eles não existem? O primeiro GM de elite a ser vítima da imprevisibilidade do torneio foi o ucraniano Pavel Eljanov. Logo na primeira partida, depois de dar uma aula técnica para o GM americano Lenderman, chegou-se à seguinte posição:

 

Nesse ponto as brancas já patinaram um pouco na conversão da vantagem e a posição não é tão simples, mas com 54.Td2?? Elas ficam perdidas após 54… Txd2!-+.

Ainda era um empate com 54.Txe3! fxe3 55.Cf5, a excelente posição do cavalo em f5 defendendo e7 e mantendo h6 sob ataque garante que as pretas não tem como jogar por mais que o empate.

Depois dessa derrota inesperada na primeira rodada, Eljanov não conseguiu se recuperar e, arriscando um pouco além da conta, perdeu a segunda partida também, sendo eliminado por um triste 2-0. Coisas que acontecem na Copa do Mundo!

Para mim, a maior expectativa da primeira fase era ver como os jogadores brasileiros e latinos se sairiam, pois alguns GM’s sul-americanos têm se destacado recentemente, como Cori, Mareco, Bachmann e Cordova.

Os GM’s brasileiros Fier e El Debs lutaram bravamente, porém acabaram caindo na primeira fase, contra os GM’s Bacrot e Wojtaszek, respectivamente. O resultado dos latinos ao fim da primeira rodada, apesar da torcida, ficou assim:

 

 

Fier-BRA(2579) 1–1 Bacrot(2715) – Eliminado nas rápidas por 1,5-0,5

El Debs-BRA(2531) 0,5–1,5 Wojtaszek(2745)

Cordova-PER(2629) 0–2 Rapport(2675)

Cori-PER(2641) 1,5–0,5 Jones(2660)

Mareco-ARG(2650) 0,5–1,5 Bluebaum(2646)

Flores-ARG(2580) 0–2 Bu Xiangzhi(2710)

Krysa-ARG(2537) 0,5–1,5 Li Chao(2744)

Bachmann-PAR(2648) 0–2 Dreev(2648)

Delgado-PAR(2614) 0,5–1,5 Vidit(2693)

Ruiz Castillo-COL(2377) 0,5–1,5 So(2810)

Bacallao Alonso-CUB(2573) 1–1 Fedoseev(2731) – Eliminado nas rápidas por 2-0

Gonzalez Vidal-CUB(2543) 1–1 Harikrishna(2743) – Eliminado nas rápidas por 0,5–1,5

Bruzon-CUB(2643) 1,5–0,5 Anton Guijarro(2616)

 

Ao fim da primeira fase, os únicos classificados foram Cori e Bruzon, mas a grande surpresa foi protagonizada pelos GM’s cubanos Bacallao Alonso e Gonzalez Vidal, que infligiram derrotas inesperadas na primeira partida do match a seus fortes oponentes, Fedoseev e Harikrishna.

Gonzalez Vidal fez uma partida excelente contra o GM indiano, um exemplo instrutivo de como abrir a posição do rei adversário no momento certo, e na base de dados analiso a interessante vitória de Bacallao Alonso contra o GM russo Vladimir Fedoseev, que possui um estilo agressivo e destemido, um jovem jogador em ascensão que este ano passou a marca de 2700 e nessa mesma copa, nas rodadas seguintes, eliminaria Nakamura, prova de sua força.


 

2ª fase: Fim Da Copa Para Os Latinos; O Primeiro Campeão Se Vai; O Ministro Da Defesa Também

A primeira fase foi um bom aquecimento, e a segunda reservava novas surpresas. Não para Carlsen, que bateu facilmente Dreev por 2-0, e parecia estar tendo vida fácil no torneio (seu destino ainda o aguardava).

Apesar do bom desempenho na primeira fase, foi o fim da competição para Cori e Bruzon, que caíram nas rápidas por 1,5-0,5 frente a Grischuk e Nakamura, respectivamente.

A segunda fase também foi o fim da aventura para alguns favoritos: Harikrishna, Mamedyarov, Wojtaszek, Adams, Wei Yi, Yu Yangyi, Radjabov.

Mas as duas maiores surpresas com certeza foram a eliminação de Karjakin, atual campeão, para o jovem compatriota GM Daniil Dubov, e, num outro patamar de surpresa, o ex-campeão mundial Vishy Anand para o jovem GM canadense Anton Kovalyov.

 

 

Com a eliminação de tantos 2700 e de um ex-campeão mundial, para os leigos, ficou claro: na Copa do Mundo ninguém está a salvo! Particularmente, gosto desse tipo de zebra, quando o jogador de menos rating compensa a diferença de nível para com seu experimentado oponente com energia, motivação e boa preparação, e consegue surpreender a todos. Outra coisa que a Copa do Mundo pode proporcionar!

Na segunda fase, destaco a vitória de Dubov contra Karjakin, uma surpreendente demolição de um jogador muito sólido, em uma linha interessante da inglesa que tem ganhado popularidade graças a outro russo, Grischuk. Você pode conferir as análises na base de dados.

 

3ª fase: Fim Da Diversão, Magnus; Bermudagate; Mais Favoritos Caem

Antes de mais nada, a terceira fase trouxe um confronto que chamou a atenção de todos: Kramnik-Ivanchuk: Dois jogadores geniais e com uma vida de xadrez jogado em alto nível, em um match que seria imprevisível.

Kramnik está em melhor forma atualmente, mas Ivanchuk tem a seu favor o fato de ser Ivanchuk, uma pessoa que pode vencer qualquer enxadrista no mundo. No fim, parece que SER Ivanchuk importa bastante: 1,5-0,5 pro ucraniano no ritmo clássico.

Outro confronto interessante foi o duelo entre os jovens Dubov e Artemiev, que terminou em 1,5-0,5 para o primeiro, após jogar de forma bastante ousada e buscando complicações na segunda partida do match, sendo recompensado com o ponto. Na entrevista após a partida, Dubov contou que sua estratégia para esse torneio era arriscar, apostando em complicações, um sinal de grande confiança em suas habilidades táticas e de cálculo!

Também vale destacar o disputado match entre Aronian e Matlakov: após perder a primeira partida clássica, o jovem GM russo buscou a vitória de brancas em uma partida incrível, que já foi analisada aqui.

 

 

O match seguiu acirrado nos desempates também, com empates nas rápidas e nas semirrápidas, e só foi decidida no blitz, 2-0 para Aronian.

Seguindo o expurgo dos favoritos, Nakamura viu sua copa se encerrar ainda nas partidas clássicas contra um imparável Fedoseev, e Caruana surpreendentemente foi despachado por Najer nas rápidas.

Giri foi outro que esteve nas cordas em vários momentos, contra o GM indiano Sethuraman, mas teve um destino melhor que seus colegas e sobreviveu.

A terceira fase, bem como essa Copa do Mundo, ficará lamentavelmente marcada na nossa memória pelo episódio da bermuda, que mostrou um despreparo e uma falta de tato incríveis por parte da equipe de arbitragem e organização, e culminou com o mesmo GM Kovalyov, que havia brilhado contra Anand, desistindo da competição.

 

 

Esse é assunto para outro post, mas quem tiver interesse na minha opinião sobre o episódio, pode conferir na minha página pessoal no Facebook.

A terceira fase também ficará lembrada porque foi o fim da diversão do campeão mundial Magnus Carlsen.

Carlsen vinha de vencer facilmente Dreev por 2-0, com seu xadrez habitual, tirando as peças tranquilamente e vencendo por sua força de jogo e maior compreensão, mas contra o chinês Bu Xiangzhi, as coisas foram diferentes: de uma maneira surpreendente, Carlsen se viu levando um ataque inesperado, extremamente bem conduzido por Bu, e mesmo encontrando lances de defesa que impediam a derrota imediata, não conseguiu evitar uma posição inferior, e subsequentemente a derrota: 0-1.

Magnus Carlsen perdendo de brancas? O que seria isso? Conseguiria ele recuperar o placar no dia seguinte, de pretas e contra um adversário sólido? Essas e outras questões passaram pela cabeça de muitos enxadristas, este que vos escreve incluso, e todos estavam tensos para ver como o campeão mundial tentaria igualar o marcador.

Porém, ao que parece, a mágica de Carlsen não tem sido muito boa ultimamente: ao contrário do esperado, o norueguês jogou uma abertura sólida de pretas, e, apesar de conseguir uma posição jogável, cometeu uma imprecisão logo em seguida, e seu cuidadoso oponente não lhe deu chances práticas de lutar por uma vitória após isso: 1,5-0,5 a favor do chinês, e foi o fim da Copa do Mundo para o Campeão Mundial. Sorte na próxima!

 

 

Na entrevista após a segunda partida, o GM chinês apresentou ao mundo sua interessante postura para esse torneio: perguntado se pensava ter chances de vencer o torneio ou alcançar a final e classificar-se para o Torneio de Candidatos, praticamente ao toque, após vencer o melhor jogador do mundo, Bu respondeu: “não, não, claro que não! Eu só quero jogar uma partida por vez, e jogar um xadrez feliz aqui, essa é minha estratégia”.

Após a entrevista, o repórter escreve que perguntou a Bu o que seria “xadrez feliz”, e obteve a resposta: “jogar xadrez feliz é jogar xadrez com felicidade, independente de qual seja seu oponente, você apenas faz seu lance e curte a partida!” Sábias palavras, Bu! E assim foi a imprevisível e terceira fase. Minhas análises da partida Carlsen x Bu estão na base de dados.

 

4ª Fase: Chega o cansaço; Ivanchuk Imparável; duelos interessantes nas quartas-de-finais

Como dito antes, esse torneio é além de tudo uma maratona física, pois simplesmente não há dias livres entre as rodadas, isto é, o jogador que consegue passar ainda nas partidas clássicas terá o dia dos desempates livre para descansar, mas aqueles que empatam nas clássicas, não terão descanso algum entre uma fase e outra.

Apesar disso, houve um número relativamente pequeno de empates rápidos, mesmo sendo presumível que os competidores devem se sentir já desgastados nesse ponto.

O gênio Ivanchuk continua batendo quem cruza seu caminho: dessa vez a vítima foi Giri, eliminado por 1,5-0,5 no “tempo normal”. Outros que passaram de fase ainda nas partidas clássicas foram Aronian, contra Dubov, e Ding Liren, que, de brancas, espremeu seu compatriota Wang Hao na Catalã.

 

 

Digno de nota foi o match Fedoseev-Rodshtein, onde o russo venceu a primeira de pretas, o que parece perfeito, mas não conseguiu jogar suficientemente sólido contra o ímpeto de seu adversário na segunda partida, e Rodshtein foi capaz de igualar o marcador de pretas.

Porém, nas rápidas Fedoseev abriu novamente o placar, e dessa vez Rodshtein lutou mas não foi suficiente, 2-0 para o russo.

Também foi o fim do “xadrez feliz” para Bu Xiangzhi: 2-0 para Svidler nas rápidas.

O herói local, admirado não só na Geórgia mas também no mundo todo por seu estilo único, GM Jobava, também teve que voltar pra casa (mesmo que mais perto que os outros), após perder por 1,5-0,5 para Wesley So nas rápidas.

 

 

Rapport eliminou Najer também nas rápidas, e o último match, entre dois gigantes, foi decidido nas semirrápidas: Grischuk-Vachier-Lagrave.

Nesse match o francês se impôs, defendendo tenazmente a última partida, após ter vencido a primeira do ritmo de 10+10, e carimbou a vaga para a próxima fase.

Nessa rodada, a primeira partida entre Rodshtein e Fedoseev foi muito interessante, pois é um exemplo perfeito de como o jovem russo tem um estilo destemido e busca sempre as complicações, o que pode levar a posições tensas capazes de confundir até jogadores muito fortes e sólidos, como Rodshtein. As análises estão na base de dados.

 

Conclusão

Até aqui, essa foi a Copa do Mundo. Os confrontos da próxima fase prometem ser muito disputados, à medida que o torneio é decidido: Svidler – Vachier-Lagrave, Ivanchuk – Aronian, So – Fedoseev, Rapport – Ding.

Minha torcida vai para o Aronian, que vive grande fase, joga um xadrez que dá alegria de ver e merece seu direito a um match com Carlsen (pausa para imaginar Aronian Campeão Mundial, eu sei que você achou legal).

Porém, como os dois finalistas classificam para o torneio de candidatos, ficaria feliz se do outro lado Fedoseev ou So alcançassem a final (Ding Liren provavelmente irá se classificar pelo Grand Prix), apesar das chances parecerem mais reais para o americano.

E você, o que acha? Deixe sua opinião nos comentários!

 

 

Escrito pelo MI Renato Quintiliano em 15.09.17

 

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6 Respostas a “Copa do Mundo de Xadrez: Festa do Povo, “Happy Chess” e a Queda dos Grandes”

  • Reynaldo Carvalho

    Qual o motivo de várias pessoas torcerem contra o Carlsen? Ele é mascarado ou gente boa?

    • Artreiro

      Carsen joga feio igual computador despresa os ensinamentos classicos,e que faz ele ganhar São seus calculos de 12 jogodas ou mais,mas quando perde a maioria de suas derrotas são posicionais,ele recentimente está tentando mudar seu jogo pra ficar mais bonito e é isso que tem feito ele perder,querem comparar Calsen a Bob Ficher mas ao contrário do que se pensa Bob ficher era estremamente posicional a unica semelhança talvez seja o check mate eficiente,mas o Bob era mais estiloso,Carlsen foi importante pro xadrez sim pra se mostrar que se pode jogar eficiente da maneira que quiser,até mesmo sem maneira nenhuma,mas acho que ja deu,ta na hora de aparecer outro grande Campeão.

    • Luiz

      De onde vc tirou isso???
      o menino-prodígio é aclamado no mundo inteiro, seu estilo lembra o Capablanca, o jogador "sem-estilo", que joga sempre os melhores movimentos, sem vícios, teorias demais ou manias. É o estilo do xadrez moderno, alguns chamam de estilo do computador, porque a depender do software, ele também despreza as teorias, joga somente a melhor jogada, chega a ser mágico, quase um bobby Fischer, mas lembre que na época do Bob não havia computadores para treino
      Pessoalmente adoro o estilo dele, e como pessoal é um garoto incrível, que andou um pouco enxerido por efeito do Kasparov, seu ex-treinador, mas também isso é passado

    • Renato Quintiliano

      Eu torço pelo Carlsen! Gosto do jogo dele, mas temos que admirar o Bu pela coragem e determinação na partida, contra o melhor jogador do mundo!

  • Reynaldo Carvalho

    O problema é que não tem ninguém tão carismático quanto o Carlsen. Só o Chuck, mas esse já passou da idade. Carlsen mantém o xadrez na mídia, até na não especializada. Torço por ele.

  • Darlon

    Na minha humilde opinião a força de jogo do Carlsen se deve sobretudo a uma intuição fenomenal. Não é a toa que ele é também um fenomenal jogador de blitz. Ninguém vira campeão do mundo só na base de cálculo, sem um entendimento profundo do jogo.

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