Marcel Duchamp: um Artista do Xadrez

Certa vez o artista francês Marcel Duchamp disse que “nem todos os artistas são enxadristas, mas todos os enxadristas são artistas”. A frase pode parecer controversa, mas é justamente nisso que acreditava Duchamp. Tanto é que, apesar do sucesso que fazia como artista, ele decidiu pôr fim a sua carreira para dedicar-se inteiramente ao xadrez. No mínimo intrigante, não acha? Então continue lendo e conheça mais sobre Marcel Duchamp e como sua obra está estreitamente relacionada ao xadrez!

 

Um artista contra a arte

Nascido em 1887 na França, em uma família cujos hobbies incluíam ler, pintar, jogar xadrez e tocar instrumentos, o jovem Marcel não era um dos primeiros de sua classe na escola, mas excedia em matemática e desenho. Depois de ganhar alguns prêmios nas duas matérias, Marcel decidiu seguir o caminho já cursado por seus irmãos e tornar-se um artista, mas a verdade é que sua vida o levaria por rotas muito mais sinuosas do que ele esperava…

 

Primeiros sucessos

Logo em seus primeiros trabalhos, Marcel Duchamp já mostrava sua tendência ao vanguardismo. Apesar dos esforços de seu professor de desenho para protegê-lo das práticas artísticas mais modernas da época, Marcel logo identificou-se com o que havia de mais moderno em sua juventude: o Impressionismo e o Pós-impressionismo.

Depois de exibir algumas de suas obras no Salão de Outono parisiense em 1908, Marcel fez amizade com vários artistas do movimento cubista, que estava começando naquele tempo. Foi quando pintou quadros como Nu de um Homem Triste em um Trem e Jogadores de Xadrez.

 

Nu de um homem triste em um trem marcel duchamp

[Nu de um Homem Triste em um Trem]

Marcel Duchamp xadrez

[Jogadores de Xadrez]

 

Da “arte retiniana” à arte da mente

Apesar da identificação inicial com os cubistas, Marcel Duchamp não se via como parte integral do movimento. Prova disso é o que aconteceu em 1912, quando uma de suas pinturas, Nu Descendo uma Escadaria, Nº 2, causou polêmica em um salão cubista, já que não parecia pertencer àquele estilo. Para não comprometer seu relacionamento com outros artistas, Duchamp retirou a pintura pessoalmente do salão, reconhecendo que não se enquadrava junto às outras obras exibidas ali.

 

Nu descendo uma escadaria No. 2 marcel duchamp

[Nu Descendo uma Escadaria, Nº 2]

No mesmo ano, em uma viagem com outros artistas pela região do Jura, na França, Duchamp começou a contestar a ideia de arte como era vista pela sociedade — isto é, como algo essencialmente visual ou “retiniano”. Para ele, a arte deveria ser um estímulo à mente, e não apenas aos olhos.

Foi quando ele começou a trabalhar com seus famosos readymades, obras de arte feitas a partir de objetos cotidianos que não suscitavam nenhum prazer estético, mas sim a pura indiferença. É o caso de sua Roda de Bicicleta e da famosa A Fonte, “escultura” — que na verdade consistia em um mictório assinado pelo artista com o pseudônimo R. Mutt — enviada por Duchamp a uma exposição da Sociedade dos Artistas Independentes em 1917, causando escândalo e levando a um questionamento do que era, afinal, a arte. Para se ter ideia, a polêmica gerada pela escultura foi tão essencial para o mundo artístico que, em 2004, foi eleita a obra que teve mais influência na arte do século XX!

 

roda de bicicleta marcel duchamp

[Roda de Bicicleta]

a fonte marcel duchamp

[A Fonte]

Fuga das telas para os tabuleiros de xadrez

Durante a Primeira Guerra Mundial, Duchamp e sua família se mudaram para os Estados Unidos, onde o artista ficou de 1914 até 1918, quando decidiu abandonar o cenário artístico de Nova Iorque para viajar a Buenos Aires, onde passou a se dedicar a outro tipo de arte: o xadrez.

 

A última obra duchampiana?

Depois de passar nove meses na Argentina, onde chegou a esculpir suas próprias peças de xadrez, Duchamp voltou aos EUA para terminar o que, durante décadas, foi considerada sua última obra: a escultura A Noiva Despida por seus Celibatários, ou O Grande Vidro.

Iniciada em 1913, quando Duchamp já questionava as ideias de “arte” e “artista”, a escultura é até hoje um mistério para a crítica, e há hipóteses de que essa tenha sido exatamente sua intensão: debochar daqueles que tentam interpretar a arte como se houvesse, por detrás dela, alguma “verdade” a ser descoberta.

 

Marcel Duchamp xadrez

[O Grande Vidro]

 

Duchamp enxadrista

Se a arte de Duchamp intrigava os críticos, o que passou a intrigar o artista depois de 1918 foi o xadrez. Há relatos de que seu fascínio pelo jogo era tanto que sua esposa, enciumada, decidiu um dia colar suas peças ao tabuleiro!

“Casos” à parte, Duchamp chegou a tornar-se um enxadrista relativamente bem-sucedido, tendo representado a França ao lado de Alekhine nas Olimpíadas de Xadrez de 1933 e até enfrentado adversários como a campeã feminina Vera Menchik e o campeão estadunidense Frank J. Marshall. Seu estilo de jogo balanceava bem entre o estratégico e o tático, e ele gostava de aberturas hipermodernas, como a Defesa Nimzoíndia.

Apesar de sua intenção de tornar-se enxadrista profissional acabar sendo frustrada, o artista nunca deixou de expressar sua paixão pelo xadrez, tendo inclusive obtido o título de mestre em 1925 e continuado a jogar — principalmente por correspondência — durante toda a sua vida.

 

O legado de Marcel Duchamp

Nos anos 1920, Marcel Duchamp parecia ter abandonado sua promissora carreira artística para se dedicar ao xadrez, entretanto, seu sucesso nessa segunda paixão não conseguira atingir o mesmo esplendor que a primeira. A verdade, porém, é ele nos deixou um legado muito importante tanto em uma quanto em outra:

 

Uma obra escondida

Mesmo com todas as suas dúvidas e questionamentos sobre a arte, Duchamp não a abandonou por completo quando decidiu dedicar-se integralmente ao xadrez. Na realidade, entre 1946 e 1966 ele trabalhou secretamente na obra Étant donnés, um quadro que só podia ser visto através de um buraco em uma porta de madeira. Mais surpreendente ainda é o fato de que a modelo que posou para o quadro foi a escultora brasileira Maria Martins, com quem o artista se relacionou entre 1946 e 1951, acredita?

 

O xadrez na arte

Em entrevista à revista Time, em 1952, Duchamp afirmou que o xadrez tinha toda a beleza da arte, mas era ainda mais puro, já que não podia ser comercializado. A arte, portanto, sempre existira para ele no xadrez, mas é o processo inverso — de levar o xadrez à arte — que marca seu legado.

Em algumas obras, a influência do xadrez é bem evidente: é o caso do quadro Jogadores de Xadrez, da “Reunião” — concerto em que Duchamp e o compositor John Cage exploram as relações entre a música e o xadrez — e do poster para a exposição “Through the Big End of the Opera Glass”, na Julien Levy Gallery — que apresenta um problema de xadrez até hoje sem solução. Em outras, entretanto, a relação com o xadrez só pode ser especulada, como acontece no Grande Vidro (também chamado de A Noiva Despida por seus Celibatários), em que a noiva pode ser uma metáfora para a Dama e os celibatários para os peões.

 

Marcel Duchamp xadrez

[Poster para a exposição “Through the Big End of the Opera Glass”]

De qualquer forma, é certo que Marcel Duchamp via na arte e no xadrez uma forma de entender alguns mistérios da vida, ainda que, por vezes, eles nos parecessem ainda mais complicados quando expressados no tabuleiro ou na tela.

 

E você, achou esse post interessante? Então não deixe de ler também nosso artigo listando 5 obras de arte sobre xadrez e fique ainda mais por dentro desse assunto!

 

Imagens: http://www.wikiart.org/

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One Reply to “Marcel Duchamp: um Artista do Xadrez”

  • Gustavo Brandão Messenberg

    Bom comentário. Parabéns. Sabia pouco desse importante artista e dedicado enxadrista. Como o texto indicou, foi no mais aclamado como artista.

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