Norway: “Há Algo de Podre no Reino da Noruega” II

 

“HAMLET – Não, as coisas não estão bem. Suspeito alguma vilania. Quisera que a noite já tivesse vindo. Mas até lá, minh’alma, permanece calma! Ainda que a terra inteira os haja de esconder, os atos vis terão no fim de aparecer”.
 (Hamlet, peça de William Shakespeare)

 

Tremei boca maldita! Calai! Quanto horror perante os céus! Não imaginávamos que a tragédia anteriormente, por nós, e pelos fatos, anunciada (veja mais aqui!) ainda se estenderia! Ah! Pobre Príncipe da Noruega Magnus Carlsen: em cada aceno negativo de cabeça; em cada movimento impaciente de pernas; em cada tremular de mãos sobre as peças; deixa escapar um jovem e atordoado Hamlet – que parece querer nos dizer: “Oh, Deus! Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me achar o rei do espaço infinito se não tivesse maus sonhos!”.

Os fatos, terríveis, mais uma vez.

 

Ato 3. Ou terceira Rodada.

Anand e Grischuk fizeram uma interessante partida, na qual as negras (Grischuk) conseguiram, por meio do sacrifício de um peão, jogo muito ativo. Contudo, Anand respondeu à altura e o empate não desmereceu o dinamismo do embate.

Vachier-Lagrave e Topalov… É difícil não reconhecer no jogo (e até mesmo no aspecto físico) algo de Mefistófeles em Topalov. Desta vez a vítima foi Vachier-Lagrave que, de brancas, numa posição razoavelmente comum da Eslava, Variante Merano, acabou caindo, sem mais nem menos, em posição suspeita – errando no lance 22 e abandonando no 28. Topalov vai mantendo a liderança – mostrando boa preparação, energia e, claro, sorte (ou Feitiço?). Veja a partida aqui.

Mais acontecimentos estranhos em Nakamura x Caruana. Antes do torneio, Nakamura, que havia feito uma declaração no mínimo “polêmica” (reveja aqui), se não é um Mefistófeles é, ao menos, um ardiloso ninja – daqueles que te ataca violentamente, mas que também não possui nenhum problema em te matar no meio da noite, enquanto você dorme. Num final de torres completamente igualado, Caruana, de negras, cometeu dois erros estratégicos/estruturais incompreensíveis – e eis mais uma vitória do estilo “interessante” de Nakamura.

Aronian, de brancas, contra Hammer, numa inglesa (foi a terceira partida de Hammer e a terceira Inglesa!), embora tenha passado com uma mínima vantagem estrutural durante quase toda a partida, não conseguiu nada além do empate. Com certeza, pelos resultados dos últimos torneios, Aronian não está numa fase muito feliz.

E nosso príncipe? Carlsen (brancas) e Giri (negras) foi uma luta de altos e baixos – e talvez, por isso mesmo, com grandes emoções. Contudo, evidentemente, o mais importante seria ver a reação de Carlsen depois de sair com duas derrotas nas duas primeiras rodadas. Resumindo: A recuperação. A redenção. A decepção… Em toda a confusão que foi o meio jogo, Carlsen, no controle de tempo, acabou deixando escapar um arremate (que não era, de modo algum, fácil de encontrar), mas com ele boa parte das chances de vitórias. O príncipe ainda luta, mas continua açoitando o ar e atacando as sombras… Quem é seu inimigo? Os assassinos que ele encontra em sua corte ou os demônios que torcem sua alma?

 

“HAMLET: Oh, gigantescas legiões do céu! Oh, terra! Que mais ainda? Devo apelar ao inferno? Infâmia! Calma, calma, coração; E vocês, meus nervos, não envelheçam de repente; Mantenham-me tranquilo”.

 

Ato 4. Ou Rodada 4.

Maxime-Lagrave, que havia começado muito bem (vencendo a prévia no Blitz e Aronian na primeira rodada), parece ter sentido a derrota contra Topalov – na rodada anterior. Lagrave, de pretas, contra Caruana, apesar dos golpes e contragolpes, não chegou a ameaçar o jovem GM naturalizado americano e mais um empate foi firmado.

Já Nakamura segue testando sua variante com 6… Bc5 na Ruy Lopez. Apesar de algumas chances, Giri, de brancas, não conseguiu passar do empate também.

E mais uma vez: com licença, Shakespeare. Venha Goethe, pois, novamente, invocamos ele. Mefistófeles. Sem tantos feitiços desta vez, é verdade, mas mais uma vitória de Topalov. Agora contra Aronian (pequena vantagem do começo ao fim – sem truques. Às vezes o grande truque é fingir que não há truque nenhum…)

norway chess topalov aronian

E adivinhem qual foi a abertura da partida Grischuk x Hammer? Se você disse, Inglesa, parabéns (Voltando Shakespeare…):

”HAMLET — Ah, sim? E por que o mandaram para a Inglaterra?
PRIMEIRO COVEIRO — Ora, porque enlouqueceu. Lá, ele há de recuperar o juízo; mas se o não fizer, importa pouco.
HAMLET — Por que razão?
PRIMEIRO COVEIRO — É que ninguém se aperceberá disso; todos por lá são tão loucos quanto ele.”

E, loucura ou não, o 7. Ch3, seguido de 8. Cg1, de Grischuck é, ou não é, coisa de louco? Louco ou não, vitória das brancas! (normalmente, nesses tipos de tragédia, o louco sempre tem razão).

Mas… Falando em Hamlet… Carlsen. Partida longa contra um rei recentemente deposto: Anand (de brancas). Manobras e valentia não faltaram para o nosso príncipe e sobraram para o ex-campeão. Ponto de Anand – ataque arrebatador (Ah! Quanto custou a valentia e a qualidade ganha pelo nosso príncipe Carlsen). Vitória de Anand e mais um dia de luto na Noruega (veja a partida aqui).

 

“HAMLET — Morro, Horácio; o veneno me domina já quase todo o espírito; não posso viver para saber o que nos chega da Inglaterra. Contudo, profetizo que há de ser escolhido Fortimbrás. Meu voto moribundo é também dele. Dize-lhe isso e lhe conta mais ou menos quanto ora aconteceu… O resto é silêncio. (Morre).”

 norway chess carlsen anand

(Anand aparenta certo ar de piedade – sabe o papel que lhe cabe)

A classificação agora é: Topalov (3,5) – o Mefistófeles; Nakamura (3,0) – o “interessante”; Giri e Anand (2,5); Caruana, Grischu e; Vachier-Lagrave (2,0); Aronian e Hammer (1,0); Carlsen (0,5).

 

Site oficial: aqui

Fotos: chessbase.com.

 

Escrito por Equipe Academia de Xadrez Rafael Leitão 20.06.2015.

 

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