O Outro Lado das Trapaças no Xadrez

A injustiça que se faz a um,
é uma ameaça que se faz a todos
(Montesquieu, filósofo francês)

Liderar um torneio de elite com 5/5 ou ganhar de um Super Grande Mestre no ICC são indícios suficientes para embasar a grave acusação de fraude? Esses foram os últimos acontecimentos que aguçaram a paranoia de trapaça no mundo enxadrístico.

Recentemente, aqui na Academia Rafael Leitão, mostramos um curioso caso de trapaça: num grande torneio aberto em Nova Deli, Índia, o jovem Dhruv Kakkar, de mais ou menos 1500 de elo FIDE, utilizando celulares e escutas, fez uso de computadores para vencer diversas partidas – inclusive contra um GM. Veja todo o caso aqui. Contudo, na mesma reportagem, já apontamos para outro ponto interessante desses casos: nos matchs pelo Campeonato Mundial entre Fischer x Spassky (1972) e, posteriormente, Kramnik x Topalov (2006), por exemplo, várias acusações, de ambos os lados, foram feitas – no entanto, sem nenhuma conclusão e, muito provavelmente, porque não havia nada para se provar. Em suma: eis o outro lado da trapaça, ou, melhor dizendo, a ausência da trapaça e só as denúncias (muitas vezes infundadas ou simplesmente paranoicas). Verdadeira “caça as bruxas” – como aconteceu mais uma vez.

Campeonato Europeu Feminino, Chakvi, Geórgia (vocês já perceberam quantas vezes citamos a Geórgia aqui na Academia? Será que o país ficou mais movimentado depois que o GM Alexandr Fier se mudou para lá? É provável. Ou isso seria mais uma acusação sem provas?). Embora o torneio não estivesse contando com algumas das principais jogadoras da Europa (como Mariya e Anna Muzychuk; Alexandra Kosteniuk e Natalia Pogonina), ele ainda estava consideravelmente forte. Entretanto, dentre tantas jogadoras de 2500, algumas, inclusive, bem jovens e em franca ascensão, depois de cinco rodadas, quem liderava a competição era a WGM romena Mihaela Sandu, de 38 anos de idade, 2300 FIDE, com impressionantes 100% de aproveitamento. Para algumas das suas adversárias, impressionantes até demais…

Num primeiro momento, uma carta, depois da sétima rodada, assinada por 32 jogadoras do torneio, pedia um atraso de 15 minutos nas transmissões ao vivo – para dificultar qualquer tipo de trapaça e deixando clara a suspeita de que algo errado estava acontecendo no torneio. O pedido foi acatado pela Organização do evento.

mihaela sandu trapaça xadrez3

 

Essa primeira carta dizia, aproximadamente, o seguinte:

“Nós, as participantes do 16º Campeonato Europeu Feminino, gostaríamos de expressar a nossa profunda preocupação frente às suspeitas de fraude no torneio. Gostaríamos de pedir a cooperação dos organizadores a este respeito. Existem algumas maneiras de combater o uso de trapaças envolvendo a tecnologia e nós acreditamos fortemente que os organizadores devem fazer o possível para evitar tais situações. Nós pedimos um atraso de 15 minutos na transmissão ao vivo de todos os jogos. É uma solução comum, usada em muitos torneios de alto nível.”

Contudo, não parou por aí. Uma segunda carta, desta vez assinada por 15 jogadoras, endereçada mais uma vez à Organização do torneio, mencionava diretamente Mihaela Sandu e pediam a remoção de seus jogos das transmissões online:

“Nós, as participantes do 16º Individual de Xadrez Campeonato Europeu Feminino, queremos expressar nossa preocupação frente ao desempenho da jogadora M. Sandu. Gostaríamos de pedir aos organizadores que não incluíssem a transmissão ao vivo dos jogos de Sandu a partir das próximas rodadas e que os publiquem apenas após o termino das rodadas. Nós não vemos qualquer razão importante para que tal medida de precaução não agrade os dois lados. Esperamos que essa decisão impeça todas as possíveis suspeitas.”

Esta segunda carta foi duramente criticada pelos organizadores. Em resposta, assinada pelo Diretor do Torneio Giorgi Giorgadze, afirmam:

“…consideramos essa acusação como injusta, insultante e criadora de desnecessária pressão psicológica.”

O fato com certeza abalou a jogadora romena – que acabou perdendo três partidas seguidas, apesar do apoio de vários GM’s pelas redes sociais a fora (como Nigel Short e Jan Gustafsson), assim como de algumas companheiras de equipe (caso da jogadora Irina Bulmaga).

A acusada também usou as redes sociais para manifestar a sua indignação, caracterizando o comportamento de suas concorrentes como “um ataque muito sujo, que cria danos permanentes para meu nome no mundo do xadrez”.

Sandu terminou o torneio com 6,0 pontos e na décima sexta posição (ela era a número 45ª), com um rating performance de 2471. A campeã foi a GM Natalia Zhukova, com 8,5.

 

A opinião do GM Rafael Leitão sobre o episódio:

“Era uma questão de tempo que a permanente suspeita de ajuda externa se tornasse em uma paranoia. Já observamos isso antes – acusações sem provas -, inclusive em torneios aqui no Brasil. Mas o que aconteceu na Geórgia ultrapassou todos os limites aceitáveis. Nota-se claramente que as signatárias das cartas sequer se deram ao trabalho de olhar as partidas da enxadrista romena. O simples fato de ter um rating menor e mais pontos na tabela configurou, para elas, um indício irrefutável.

Pois bem, eu me dei o trabalho de analisar as cinco primeiras partidas de Sandu com o computador (clique aqui para vê-las). As suspeitas são baseadas no seu resultado após estas cinco vitórias, portanto estas são as partidas mais relevantes.

Nestas 5 partidas, temos um pouco de todos os erros comuns a nós, mortais: erros de cálculo (vários), arremates imprecisos, erros posicionais… A única coisa que não há é o que seria o indício de ajuda externa: jogadas incompreensíveis para a mente humana, mas que figuram entre as 3 primeiras do computador.

Eu acho que todas as signatárias da segunda carta, que cita especificamente o nome da enxadrista romena, deveriam ser exemplarmente punidas pela FIDE. Esse ataque totalmente injustificado abalou o resultado de Sandu – que poderia ser o melhor de sua carreira – e pode abalar sua reputação como enxadrista (e ela é jogadora e treinadora profissional).

Quem fala (ou escreve) o que quer, tem que estar pronto para as consequências”.

 

“POST MORTEM”

luis supi xadrez

Num caso mais “próximo”, o nosso MI Luis Paulo Supi, num torneio virtual de Blitz pelo ICC (Internet Chess Club), venceu o Top GM Hikaru Nakamura – que acabou acusando o brasileiro de estar jogando com ajuda de computadores e fez uma reclamação para um dos Administradores do site que não apenas tirou o ponto de Supi, como o baniram do torneio. O MI brasileiro, via Facebook, se mostrou inconformado:

“Inacreditável! Após ganhar a partida que eu tô postando abaixo, do Nakamura , ele como sempre faz após perder qualquer partida reclamou , e simplesmente não apenas tiraram o meu ponto , como me eliminaram do torneio , é decepcionante , qualquer pessoa normal que veja a partida percebe que é uma partida cheia de imprecisões e o administrador decidiu simplesmente atender a reclamação dele, pelo jeito sem nem ter analisado a partida!

Veja a partida do Supi (brancas), com análises, clicando aqui.

 

Comentários do GM Rafael Leitão para a partida do Supi:

 

“O Nakamura é bem conhecido pelos escândalos e chiliques que costuma dar. Infelizmente o Supi foi a vítima da vez. Acusar o uso de computador nessa partida é algo totalmente absurdo! A partida está repleta de erros táticos (o que é natural para uma partida de 5 minutos). Naka jogou muito mal e, sinceramente, não teria sobrevivido muito tempo contra um computador com a abertura horripilante que jogou. Mais absurdo ainda foi o ICC ter eliminado o jovem brasileiro do torneio com base nessa partida. Será que eles se deram ao pequeno trabalho de passar a partida no computador?”

Agora, a pergunta que fica no ar é: Como encontrar o meio termo para evitar fraudes e, ao mesmo tempo, não prejudicar inocentes com injustas acusações?

É certo que as autoridades competentes devem agir rápido e energicamente em ambas as situações, mas cada um pode colaborar usando o bom senso!

 

Fotos: Chessbase e Chess24.

 

Equipe Academia de Xadrez Rafael Leitão 03.06.2015.

 

2 Respostas a “O Outro Lado das Trapaças no Xadrez”

  • Marcos Vilhena

    Agora, a pergunta que fica no ar é: Como encontrar o meio termo para evitar fraudes e, ao mesmo tempo, não prejudicar inocentes com injustas acusações?

    No mínimo deveriam ter analisado as partidas.

  • Daniel

    E se mesmo analisando o jogador tenha jogado 100% dos 3 primeiros lances sugeridos pela máquina, isso seria prova para assim determinar que usou máquina?
    Já vi diversas partidas onde aconteceu de acertarem os 3 primeiros lances sugeridos da máquina e isso é muito mais comum do que parece.

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