O Pensamento Profilático no Xadrez

O pensamento profilático

Para mim a ideia de “profilaxia” ou “pensamento profilático” é um dos temas mais bonitos e complexos do xadrez. Claro que todo jogador tem seu estilo de jogo e algo que o atrai no xadrez. Muitos gostam de posições táticas, de combinações complexas. Devo admitir que não sinto tanta atração por isso, apesar de – naturalmente – reconhecer sua importância. Mas ligue o computador e ele imediatamente lhe dará a resposta nesses caso, não sendo tão difícil o entendimento (apesar de algumas das combinações serem quase impossíveis a olhos humanos). Já a profilaxia não: ela vai exigir sua concentração e reflexão. Não adianta colocar no computador – muitas vezes ele não irá entender a ideia correta ou então simplesmente mostrará um lance, de forma maquinal, fria. Mas a beleza do tema só ficará clara no momento que você entender todas as sutilezas. Para mim essa é a verdadeira arte do xadrez.

 

O que é profilaxia?

Mas, afinal, o que é profilaxia? O primeiro autor a utilizar esta ideia foi Nimzowitsch, no “Meu Sistema”. Definiu o termo como “a adoção de medidas destinadas a prevenir certos fenômenos indesejáveis sob um ponto de vista posicional”. Entretanto, por alguma razão, reduziu o âmbito das medidas profiláticas somente à prevenção de jogadas de peões do adversário.

Já Mark Dvoretsky (meu autor predileto) levou a ideia de profilaxia a um outro patamar. Eu diria que o estudo da profilaxia é um dos seus grandes legados. Ele se deu conta que o conceito é aplicável a uma gama de situações muito mais amplas que as consideradas por Nimzo. E, o mais importante, que devemos focar não apenas nas jogadas profiláticas, mas no processo correto para encontrá-las.

 

A visão de Artur Yusupov

Segundo o grande mestre Yusupov, discípulo de Dvoretsky e que chegou a ser semifinalista do Torneio de Candidatos:

“O desenvolvimento da habilidade do pensamento preventivo permite ao enxadrista dar um enorme passo adiante e melhorar drasticamente a categoria do seu jogo. Por quê? Vou destacar duas razões principais.

  • Porque o espectro de situações nas quais se utiliza o pensamento preventivo é excepcionalmente amplo. Qualquer decisão posicional relevante necessariamente combina a realização de nossos próprios planos com os do adversário. O princípio básico da realização da vantagem é a limitação das possibilidades do adversário. Desenvolvendo esta qualidade ficamos mais fortes na tática e menos “descuidados”. Defendendo uma posição difícil é necessário ver todo o tempo o que nos ameaça; e quando empreendemos um ataque, devemos contar com os recursos do adversário. Desta maneira, o domínio da habilidade do pensamento profilático tem um efeito positivo em todos os aspectos do nosso jogo.
  • No xadrez lutam dois adversários em igualdade de condições e as ideias do adversário não tem tem por que serem piores do que as nossas. Logicamente, é evidente que a estratégia perfeita deve combinar com harmonia a realização dos nossos próprios planos com os planos do adversário.

 

Pensamento Profilático no Xadrez

Entretanto, a maioria dos enxadristas se esquecem de pensar nos planos dos adversários. Isto é compreensível. É inerente à natureza humana nos concentrarmos em nossos próprios pensamentos. É uma pena que na vida tampouco prestemos muita atenção aos pensamentos e sentimentos das outras pessoas”.

Esse texto do Yusupov é espetacular e resume tudo que eu gostaria de falar sobre o pensamento profilático.

 

Como desenvolver o pensamento profilático

Mas como desenvolver essa habilidade?

Como sempre, resolvendo muitos exercícios e pensando sobre o tema. A boa notícia é que material para isso não falta aos alunos da Academia ,já que venho há algum tempo compilando exercícios extraídos tanto da minha própria prática quanto de diversos livros.

E como resolver esses exercícios? Tente seguir esse pequeno roteiro básico:

  • Avalie rapidamente a posição, seguindos as diretrizes do meu texto sobre “Como Avaliar Corretamente Uma Posição”;
  • Tente ver as diretrizes básicas de qual seria seu plano ou se você tem um lance muito natural ou tentador. Caso necessário, calcule algumas variantes rápidas;
  • Tente ver qual seria o plano do seu adversário ou se ele teria (se fosse lance dele) um lance muito natural ou tentador;
  • Pense se há alguma forma de evitar a ideia do seu adversário. Dê preferência para uma jogada que evite o plano do seu adversário e ajude o seu plano ao mesmo tempo;
  • Calcule algumas variantes para verificar sua ideia.

 

Pronto para começar a levar seu xadrez a um outro nível com o domínio do pensamento profilático? Então de encontrar e resolver os exercícios. A palestra “O Pensamento Profilático no Xadrez” poderá ajudá-lo. Bons estudos!

 

Escrito por Rafael Leitão em 29.12.16

13 Respostas a “O Pensamento Profilático no Xadrez”

  • Dayvid

    Qual a bibliografia que foi extraído o comentário de Yusupov?

    • Rafael Leitão

      Foi do livro do Dvoretsky "No te olvides que tienes un rival enfrente".

  • Henri

    Como lance profilático, gostaria muito da participação de Rafael Leitão no Brasileiro Absoluto e no Aberto de Floripa.
    Abraços!
    Henri

    • Rafael Leitão

      Eu também gostaria! :)
      Abraço!

  • Fábio Campos

    Parabéns!

  • Carlos Americano

    Parabéns Leitão, tuas matérias estão cada vez mais interessantes.

    • Rafael Leitão

      Obrigado, Carlos!

  • Paulo Humberto Natal/RN

    Parabéns, Rafael. Textos excelentes, muito bem escritos, temas interessantes!

    • Rafael Leitão

      Obrigado, Paulo!

  • Fernando

    Parabéns Rafael por trazer diferentes percepções ao jogo. É o xadrez levado a sério..

    • Rafael Leitão

      Obrigado, Fernando!

  • Eduardo Andrade

    Excelente!

  • Igor Rocha

    Muito bom texto, já havia pensado a respeito. Prevenir maus acontecimentos não está somente no xadrez mas em qualquer ação que tomemos no nosso dia a dia.

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