O Legado de Mark Dvoretsky

Hoje de manhã fui surpreendido pela notícia do falecimento de Mark Dvoretsky. Em regra a morte de um enxadrista causa bastante comoção, por um fenômeno interessante: mesmo quando não os conhecemos pessoalmente, eles são quase como nossos amigos íntimos, pois estudamos suas partidas, seus livros, lemos sobre suas ideias, suas grandes vitórias e derrotas. No caso da notícia de hoje, a tristeza foi maior. Além de ter lido todos os livros de Mark, os antigos com especial devoção, lidos quando tinha 12-13 anos e que ajudaram a moldar meu estilo de jogo, tive a honra de conhecê-lo pessoalmente e descobrir não apenas seu lado treinador, mas também seu lado humano.

 

Já escrevi um relato sobre as duas semanas que passei em Moscou em 2002, mas acrescento aqui alguns detalhes que podem ajudar os leitores a ter uma ideia da extraordinária personalidade de Dvoretsky. Apesar de não o conhecer pessoalmente naquela época, ele teve a gentileza de me buscar no aeroporto para as duas semanas de treinamento combinadas. Todos os dias estudávamos 4 horas, nos primeiros dias apenas eu e nos dias seguintes acompanhado do GM dinamarquês Peter Nielsen, atualmente analista do campeão mundial Magnus Carlsen. Ficamos instalados em um confortável apartamento que Mark cedia a algumas visitas, a poucas quadras do apartamento em que ele vivia e no qual nos encontrávamos para treinar. Em tempos de personalidades materialistas e autores caça-níqueis, vale dar uma amostra do caráter de Dvoretsky. No último dia perguntamos a ele quanto custaria nossa hospedagem de duas semanas no seu apartamento (hotéis em Moscou são bastante caros). Ele nos disse que refletiu muito sobre o assunto, pensou em cobrar algum valor simbólico, mas que achou melhor não cobrar nada.

 

Além das muitas horas de treinamento, travamos numerosos diálogos com ele, geralmente na pausa para o lanche (praticamente um almoço – ele também não cobrou nada por isso). Enquanto devorava bolinhos e doces os mais variados (dava pra notar que o xadrez não era sua única paixão), Dvora nos falava suas ideias sobre os mais variados assuntos. Algumas radicais, sobretudo quando o assunto era o Oriente Médio (aqui suas raízes judaicas falavam mais alto do que o bom senso), mas as que mais me impressionavam eram as histórias da época da União Soviética – desde os grandes campeonatos, os jogadores com os quais ele trabalhou, o porquê de ter parado tão cedo de jogar, sua adoração por seus alunos, principalmente Artur Yussupov, a quem tratava como um filho. E, principalmente, seu ódio mortal contra as privações que teve de suportar por conta do regime soviético, algo que lhe deixou marcas profundas. Por essa razão era um grande defensor da liberdade de pensamento – o que fica bastante claro também nas suas obras. Dvoretsky nunca se conformava com o que lhe era imposto – tentava buscar sempre novas ideias, encontrar novos caminhos, o que fez com que, no xadrez, suas análises fossem de extraordinária qualidade.

 

Seus livros são excepcionais. Muitos enxadristas, incluindo alguns da elite, foram influenciados por suas obras, assim como muitos autores que passaram a imitar seu estilo. Ouso dizer que, desses autores, nenhum chegou aos pés do velho mestre. As posições de exercício do Dvora tinham um diferencial que as faziam praticamente perfeitas – eram passadas de enxadrista a enxadrista, quase todos grandes mestres, que sugeriam novas ideias que iam sendo acrescentadas e analisadas meticulosamente, tornando seus exemplos praticamente livres de erro. Infelizmente a esmagadora maioria dos autores modernos apenas coloca as variantes no computador, sem sequer dar importância para a visão “humana” da posição.

 

Meus livros prediletos são o “Secrets of Chess Training” e o “Secrets of Chess Tactics”, que depois foram reeditados na coleção “School of Chess Excellence”, de 5 volumes (os livros mencionados são o 1 e o 2 desta coleção). Mas eu tinha todos os seus livros e pude aprender algo de cada um deles.

 

Além de apaixonado por xadrez, vale ressaltar que Mark era uma pessoa extremamente lida e culta. Muitos creem que os enxadristas/treinadores de alto nível pensam apenas em xadrez e , infelizmente, vemos alguns talentos da nova geração que se dedicam apenas a colocar variantes em engines. Bom, na minha opinião xadrez é muito mais do que isso. Talvez esteja sendo nostálgico, mas que impressão eu tinha quando entrava nos apartamentos de Mark – qualquer um dos dois, em que livros brotavam de todos os cômodos – estantes espalhadas nos corredores, nos quartos, empilhados no chão. Dava para ver sua adoração pela leitura, que posso registrar melhor em três imagens: sua alegria em nos mostrar a coleção completa de Isaac Asimov (confesso que nunca li – não tenho grande interesse por ficcção científica) cuidadosamente organizada em uma estante no corredor que levava ao escritório; ele lendo um livro de Harry Potter enquanto eu pensava na solução de um dos seus intricados exercícios (segundo me disse, estava curioso para saber o motivo de tanto sucesso, por isso decidiu ler); ele lendo um livro enquanto caminhava dentro da piscina em Foz do Iguaçu, quando veio treinar a equipe brasileira em 2006. Ler e caminhar dentro da piscina – uma ideia que só poderia ter saído de sua mente criativa.

 

giorafadvo-1

Giovanni Vescovi, Mark Dvoretsky e Rafael Leitão. Foz do Iguaçu, 2006

 

E ele era também um forte jogador. Mesmo depois de parado muitos anos, voltou a jogar bem em alguns torneios na Espanha. Mas na sua época ser GM não era tarefa fácil. Mesmo assim, fatalmente conseguiria o título (era o MI com o rating mais alto no mundo, com 2530) se não tivesse parado de jogar precocemente, aos 27 anos, para investir todo o seu esforço no trabalho como treinador. Como prova de sua habilidade como enxadrista, ofereço aos leitores sua partida predileta, uma vitória técnica contra o ex-campeão mundial Vassily Smyslov.

 

 

 

Durante os Jogos Abertos eu comprei sua mais recente obra: Maneuvering – The Art of Piece Play. Também já tinha colocado na minha lista de afazeres assistir seu vídeo no Chess24, falando sobre cálculo de variantes.

 

Agora fico com a lembrança da alegria que seus livros deram à minha adolescência, das suas convicções expressas com a boca cheia de doces, da sua habilidade implacável no tênis de mesa, por incrível que pareça, que dizimou um por um toda a nossa equipe em 2006. E, principalmente, por seu amor extraordinário ao jogo de xadrez. Obrigado por tudo, Mark.

 

Escrito por Rafael Leitão em 26.09.2016.

2 Respostas a “O Legado de Mark Dvoretsky”

  • Claudiohja

    Fiquei emocionado.

  • Jorge m. junior

    por gentileza , gostaria de saber os livros escritos por Dvoretsky

Deixe seu comentário