É Possível Melhorar Estudando Xadrez 30 Minutos Por Dia?

É Possível Melhorar Estudando Xadrez 30 Minutos Por Dia?

Quanto estudo é necessário para jogar bem xadrez?

Todos os enxadristas querem jogar melhor. Mas convenhamos: a maioria não faz ideia do que estudar e de quanto tempo estudar.

Deve ser por isso que todo santo dia eu recebo emails de enxadristas interessados em saber como estudar para jogar melhor.

E uma dificuldade comum para muitos: falta de tempo para estudar. Então agora há dois problemas para serem equacionados: o jogador não tem tempo para estudar e também não faz ideia do que é mais importante para o estudo.

Mas afinal, é possível melhorar se você não tem muito tempo para estudar? Digamos: é possível melhorar xadrez estudando apenas 30 minutos por dia?

Claro que antes de responder, precisamos de um pouco de suspense…e primeiro falar sobre alguns mitos sobre o estudo do xadrez.

 

Mitos sobre o estudo do xadrez

Outro dia, durante um webinar gratuito, um dos alunos me disse que havia conversado com um famoso mestre internacional sobre uma importantíssima pergunta (modo ironia acionado): quanto tempo eu estudava xadrez. Na época em que ambos debateram tão importante questão, eu era 100% profissional de torneios.

A resposta do MI foi que eu estudava “no mínimo 8 horas por dia”.

Confesso que fiquei feliz por entrar no terreno das “lendas urbanas”, juntamente com o Saci Pererê, o Papai Noel, o “Kramnik não perde de brancas”, o “Karpov ganharia do Fischer”, o “Santos vai ganhar do Barcelona” e tantas outras que já ouvi por aí.

A verdade é que dá para contar nos dedos os dias da minha vida em que estudei perto de 8 horas (mais sobre isso mais tarde).

Outra lenda diz que todos os enxadristas da elite estão o tempo todo pensando em xadrez, que até sonham com jogadas, que são fanáticos.

Há também a lenda contrária: que Capablanca nunca estudou, que fulano de tal era mais talentoso que Kasparov, só que não estudou tanto (como se capacidade de trabalho também não fosse um talento).

Esqueçam isso. A maioria dos grandes mestres têm uma carga de trabalho “normal”, entre 4-6 horas por dia. Claro que com algumas exceções (como em todas as profissões). Há alguns que estudam muito mais e há também outros que estudam menos. E a proximidade de um torneio ou match faz com que o ritmo de trabalho aumente.

 

Enxadristas estudam de forma diferente

Nem todos os enxadristas estudam da mesma forma. Aronian, por exemplo, me disse certa vez que não conseguia estudar sozinho e que por isso sempre tinha um parceiro de análise. Há aqueles também que preferem estudar sozinhos.

Fischer, por exemplo, era um trabalhador solitário e fanático. Shirov, tal qual Aronian, prefere estudar com companhia. Anand declarou em uma entrevista que estuda 6 horas por dia. Nakamura, quando já era um forte grande mestre, disse que estudava 2 horas. Morozevich já disse que há muitos anos não estuda seriamente. Kasparov foi um dos grandes “trabalhadores” da história, imprimindo um ritmo de estudos colossal e sabendo usar o computador. Kramnik segue a mesma escola e não é à toa que ele tem, na minha opinião, a melhor preparação de aberturas de todos os enxadristas da atualidade.

Tudo isso para dizer o quê? Que cada enxadrista tem sua própria particularidade. Não há uma fórmula pronta. É possível estudar muito, estudar pouco, estudar sozinho e estudar com alguém. Existem diferentes formas de treinar xadrez e elas dependem da sua personalidade. Mas é possível melhorar com todas elas.

 

Como eu estudei xadrez

O segredo do meu progresso nos estudos de xadrez pode ser resumido em uma palavra: DISCIPLINA.

Desde muito cedo fui capaz de estudar sozinho e ver as partidas dos meus livros prediletos na época (Xadrez Básico, livro de partidas do Fischer e do Smyslov). Além disso, eu fazia exercícios de tática constantemente.

Nunca estudei muitas horas seguidas, mas o estudo era constante. Em algumas poucas ocasiões cheguei a estudar mais de 6 horas no mesmo dia. Isso aconteceu algumas vezes durante meu treinamento com Gilberto Milos e todos os dias das duas semanas de treinamento conjunto com o GM Rubén Felgaer, em 2011.

A conclusão é que é muito mais importante treinar constantemente do que treinar várias horas em um mesmo dia e depois passar vários dias sem ver xadrez. Mais vale 30 minutos constantemente do que 2 horas de vez em quando.

 

Como estudar xadrez 30 minutos por dia

Chegou a hora de alguns conselhos práticos sobre como treinar se você tem pouco tempo. Sugiro que 2 dessas sessões semanais sejam exclusivamente para treinamento de tomada de decisão, com resolução de exercícios. Isso pode ser feito para todas as áreas do jogo (minha recomendação bibliográfica está na lista que pode ser baixada no final do artigo).

Supondo que você vá estudar 5 vezes durante a semana, minha sugestão é que mais 2 sessões sejam para estudo de partidas (um bom livro de partidas modelo é necessário) e outra sessão seja diversificada com o estudo de abertura e finais. Você pode equilibrar esse treinamento com livros e vídeos.

E pronto! Você já tem uma sugestão de estudo para os dias da semana. Se conseguir estudar mais tempo durante os finais de semana, melhor ainda.

 

Conclusão

Vamos ser sinceros: ninguém chega ao nível de grande mestre estudando 30 minutos por dia. Mas se você seguir essas recomendações, com certeza você irá melhorar seu jogo progressivamente. E terá a disciplina necessária para focar nos estudos assim que tiver mais tempo.

 

Então mãos à obra!

 

Quer saber o que você precisa para estudar? Preencha o formulário e baixo o checklist para seu treinamento.

 


Comments ( 18 )

  • Francisco regis silva pontes lima

    a estoria nao foi conforme voce explicou. vou explicar novamente:

    num domingo, no programa esporte espetacular, fizeram uma entrevista com voce , rafael leitao e com o cara que fazia peças de madeira. e no final, ele te presenteia com uma peça de madeira grande , um rei. durante a entrevista, o reporter idiota da globo disse de maneira bem clara e direta, que entre estudos e treinamentos, voce estudava 8 horas por dia. no domingo em questao eu fui na casa do eduardo limp a tarde e perguntei se ele tinha visto a entrevista, ele disse que nao. ele me perguntou : foi legal? eu disse que sim e que fiquei abismado que tinha sido dito a estoria das 8 horas que eu achava muito tempo por dia. ai ele disse, acho que ele talvez estuda ate mais, porque eu (limp) estudo 8 horas. veja, ele nao disse que voce estudava mais, nem eu disse que voce estudava 8 horas. quem disse foi o cara da globo. o limp disse que “achava” que “talvez” voce estudasse ate mais, em virtude de voce e o giovanni na epoca, estarem em plena ascensão no xadrez. essa entrevista foi no ano de 98 ou 99, epoca em que eu fazia mestrado na USP de sao carlos. mas se voce estudava 1 hora, 2, meia hora, isso nao faz diferença. em nenhum momento isso foi colocado como pejorativo, muito pelo contrario, achavamos isso uma grande coisa. se o cara consegue se dedicar mais tempo, significa que ele é melhor que os caras que mal conseguem se dedicar a coisa alguma.

    • Rafael Leitão

      E quem disse que é pejorativo estudar 8 horas por dia? Acho que você não entendeu a ideia central do texto. A ideia é que não é necessário estudar tanto para melhorar no xadrez, mas o que importa é disciplina. E por que o repórter da Globo era idiota? Salvo engano era o João Pedro Paes Leme, que depois se tornou correspondente de Fórmula 1 e posteriormente chefe de reportagem na Globo. Um excelente profissional. E tudo que eu escrevi é real, não é uma “estória” inventada e sim uma “história” verdadeira.

      • Francisco regis silva pontes lima

        porque da forma que você escreveu, parece que foi inventado . em relação a estória e história não existe mais diferença entre as duas, sendo história a palavra mais indicada pra real ou imaginário. eu na época do 2 grau, aprendi que história era apenas para eventos da ciência por isso usei o termo estoria. acabei de me corrigir aqui pela internet. o joão pedro paes leme, que você lembra tão bem, deveria ter passado a informação correta então, pra não passar por idiota. sou engenheiro e uma vez na queda de um edifício, uma repórter disse que a laje tinha sido feita de isopor, quando na verdade o isopor era usado apenas pra tapar os vazios da laje cogumelo.. então eles as vezes falam sobre o que não tem certeza. fazem anotações num caderninho e depois na edição colocam apenas a voz em segundo plano e acabam falando bobagens. resumindo, quer dizer que você lembra da entrevista?? kkkk e então, na época você estudava 8 horas ou foi invenção do repórter?

        • Rafael Leitão

          A minha resposta sobre isso está bem clara no artigo.

          • Francisco regis silva pontes lima

            e eu entendi..
            kkkkkkkk

  • Frederico Simões Soares

    Ola Rafael o texto e claro no que você se propõe a falar eu lembro dessa reportagem na globo. Se falou pra mais ou pra menos isso nao foi o foco. A homenagem foi justa a Rafael e Giovanni que estavam realizando seus sonhos e projetos no esporte e a disciplina e algo que acompanha a carreira deles. ABRAÇO RAFAEL

    • Rafael Leitão

      Grande abraço, Fred!

  • Ricardo F. Ivanoski

    Olá Rafael, parabéns pelo texto!
    O Xadrez tem muitos estigmas e um deles é sobre a dedicação de seus estudos! Vou levar algumas dicas comigo e também para meus alunos de xadrez. Obrigado!

    • Rafael Leitão

      Ricardo, fico feliz que tenha gostado do texto. Espero que ele ajude você e seus alunos. Um abraço!

  • Paulo

    Sou músico e sempre estudei diariamente para melhorar na minha profissão, principalmente até eu me formar na faculdade. Por vezes ultrapassava de longe as 8h por dia, mas acredito que o mais importante para a minha formação profissional não foi a quantidade de horas de estudo por dia, mas o fato de estudar disciplinadamente todos os dias e procurar aprender coisas novas em cada dia de estudo.

    Claro que por vezes me sentia muito longe dos meus objetivos na música, e cheguei a pensar em desistir por parecer não evoluir, mas devemos confiar que toda a informação que estudamos está sendo absorvida por nosso cérebro de alguma maneira, e que com persistência, algum dia conseguiremos organizar toda essa informação estudada ao ponto de utiliza-la com maestria e naturalidade ao executar uma peça musical, ou no caso desse site, utilizarmos durante as nossas partidas de xadrez.

    Ainda estou longe de me tornar um bom jogador de xadrez, mas acredito que o melhor caminho seja esse descrito pelo Rafael. Acho q posso resumir em três palavras: Disciplina, Disciplina e disciplina.

    • Rafael Leitão

      Paulo, obrigado pela mensagem e por passar sua experiência de aprendizado. Acredito que existam muitas semelhanças entre o estudo/maestria da música e do xadrez. Um abraço!

  • Everton Barbosa Alves

    Parabéns pela matéria!

    Acredito que o tempo é o grande vilão daqueles que não são profissionais no xadrez, mas por amor a Caíssa querem dar mate nos outros, rs…

    Estarei seguindo as orientações do Mestre (inclusive na compra de alguns materiais desse seleto site) e quem sabe em um reino tão tão distante… conseguiremos alcançar e realizar o senho de se tornar ao menos MF kkkkkkkkkkk

    Abraços!

    • Rafael Leitão

      Obrigado! Fico feliz que o artigo tenha ajudado. Bons estudos!

  • Darlon Mourão

    O que o GM Leitão quis fazer neste artigo foi desmistificar este mito tolo de que que todos os profissionais estudam uma quantidade obcena de horas. O grau de proficiência que o indivíduo vai alcançar depende de n fatores, tais como: idade em que começou , metodologia , orientação e talento natural. Todos sabemos que por mais que seja possível aprender uma lingua estrangeira ,será muito difícil falar no mesmo nível de um nativo. O fato é que muitos dos grandes jogadores não estudam muitas horas por dia, simplesmente porque não necessitam , pois já tem uma fluência monumental, haja vista o xadrez ser para eles como uma lingua materna, ou seja algo natural e não forçado. Outro ponto importante do artigo foi o destaque para a questão do hábito de estudo e da disciplina. Tem pessoas que ficam anos em cursos de inglês e não adquirem a tão sonhada fluência ,enquanto outros estudando uma hora por dia ficam fluentes em pouco mais de um ano. Essa coisa de estudar todo dia é tão importante ou mais que a metodologia.

    • Rafael Leitão

      Perfeito!

  • FA WAUGHAN

    Parabéns Rafael pela matéria ,jogo xadrez a 3 anos ,e cada dia procuro aprender algo novo ,em relação ao estudo criei uma planilha de estudo diário pra ser constante nos estudos ,procuro estudar todos dias de 30 a 1 hora ,que tem me ajudado muito .
    Um grande abraço fica com Deus

    • Rafael Leitão

      Obrigado pela mensagem e um abraço!

  • Marco Aurelio Maia

    Acho que no xadrez nível amador, que é o meu e de muitos de seus leitores, o fator tempo tem um peso crucial no desenvolvimento. Vários são os fatores que podem fazer com que um jogador não evolua, mas uma coisa é bem certa e neste caso não há segredo algum: para se ter sucesso na vida, bem como no xadrez, é necessário trabalho árduo, dedicação e disciplina. Temos que definir um objetivo, traçar um caminho e acreditar que um dia poderemos chegar lá. Nada é fácil, e tenho certeza que o xadrez é bastante difícil, requer habilidades, experiência e conhecimento. Repito, não há segredo! Trabalhe duro e os resultados virão!

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