As 5 Maiores Penduradas da História do Xadrez

As 5 Maiores Penduradas da História do Xadrez

Confesse: você adora ver um grande enxadrista fazendo uma “capivarada”.

Pobres capivaras. Para sempre eternizadas, por um motivo que desconheço, como símbolo de jogadores fracos.

 

Mas saiba que mesmo os melhores do mundo já tiveram seus dias de capivara. Este artigo é para você que está precisando lavar a alma depois de ter feito aquela “pendurada” gostosa. Para quem não sabe, pendurada é fazer aquele lance que causa um sobressalto, que nos faz suar frio, pode causar até desmaios (em pessoas de compleição mais delicada).

Aquela jogada que coloca tudo a perder. Que estraga uma posição que levou horas para ser trabalhada. Que faz você jurar que nunca mais vai jogar xadrez (sensação que geralmente dura de 5 a 10 minutos).

Quantas vezes eu pendurei? Perdi as contas. Já levei mate, já esqueci de recapturar uma torre, já perdi uma partida com dama a mais (e olha que eu já era grande mestre nessa época). No meu último torneio perdi uma partida que o computador me dava +4 de vantagem.

Mas este artigo, felizmente, não é sobre mim. Porque quem sou eu nessa alta constelação de penduradores?

Vejamos a lista das 5 maiores penduradas da história do xadrez. Leia e releia este artigo sempre que precisar elevar a sua moral. Ou quando quiser dar boas risadas com a desgraça alheia.

 

5- Saemisch x Capablanca

Friedrich Saemisch foi um forte enxadrista alemão que participou de alguns dos principais torneios na década de 20. O seu sistema de jogo para as brancas contra a Índia do Rei é um dos mais populares e leva seu nome.

O lendário José Raul Capablanca dispensa apresentações. O que muitos não sabem, entretanto, é que Capablanca foi um dos maiores galãs do seu tempo. Mas seu jeito conquistador, ao que parece, não ajudou muito o seu xadrez. Reza a lenda que no exato momento da posição do diagrama, adentraram no salão de jogos – ao mesmo tempo – a esposa e a amante de Capablanca. O resultado: o pior lance da carreira do gênio cubano.

Jogam as pretas

 

Capa jogou aqui 9…Ba6?? e perdeu uma peça imediatamente após 10.Da4.

 

4- Christiansen x Karpov

Larry Christiansen é um forte grande mestre americano, vencedor de inúmeros torneios internacionais. É um dos poucos grandes mestres na história a conseguir o título diretamente, sem se tornar mestre internacional antes. Venceu o Campeonato Americano 3 vezes e participou de diversas Olimpíadas.

Anatoly Karpov é um dos melhores enxadristas de todos os tempos. Ele é conhecido por dar muita atenção aos recursos do adversário e ter um talento especial para colocar as peças nas melhores casas. Parece que esse dia os talentos de Karpov desapareceram magicamente, pois é difícil explicar o lance que ele fez na posição do diagrama. A partida é um caso único de um campeão mundial sendo derrotado em apenas 12 lances.

Jogam as pretas

 

Karpov jogou aqui 11…Bd6?? e abandonou imediatamente depois de 12.Dd1!

 

3- Petrosian x Bronstein

David Bronstein foi um dos melhores enxadristas do mundo durante vários anos, especialmente na década de 50. Por muito pouco não foi campeão mundial em 1951, quando tinha tudo para vencer o match contra Botvinnik – o match terminou empatado em 12 a 12 e Botvinnik manteve o título.

Petrosian foi campeão mundial de 1963 a 1969. Conhecido por ser um jogador muito sólido e que dominava seus adversários no jogo posicional, Tigran deve ter tido alguma alucinação na posição do diagrama. Do contrário como explicar o que ele fez?

Jogam as brancas

 

A dama das brancas está atacado, mas isso não incomodou Petrosian, que jogou tranquilamente 36.Cg5??. Mas talvez ele tenha sentido um certo desconforto depois de 36…Cxd6.

 

2- Deep Fritz x Kramnik

Duelos entre homem e máquina costumavam ser muito interessantes e midiáticos (Kasparov x Deep Blue foi um marco), até todos perceberem que o xadrez é um jogo para humanos – a máquina já é invencível. Em 2005 houve um match entre Deep Fritz (um software acessível a todos) e Kramnik, então campeão mundial.

Deu ruim…

 

E uma das diferenças entre homem e máquina ficou clara: nós, humanos, podemos perder a concentração. Nessa lista já tivemos um campeão mundial perdendo em 12 lances…agora vejamos um campeão mundial levando mate em um lance.

Jogam as pretas

 

A posição estaria igualada depois de 34…Rg8. Mas Kramnik preferiu forçar a troca de damas depois de 34…De3??. Acabou forçando crises de risos em todo o mundo depois de 35.Dh7#.

 

1- Steinitz x Chigorin

Chigorin e Steinitz tinham uma grande rivalidade no final do século 19, tendo jogado dois matches pelo título mundial. Em 1889, vitória fácil de Steinitz: 10,5 a 6,5 – a curiosidade é que apenas a última partida terminou em empate. Mas o match de 1892 estava bem difícil.

Na vigésima terceira partida, Chigorin estava completamente ganho. A vitória empataria o match. Mas então ocorreu a maior e mais dramática pendurada da história do xadrez.

Jogam as brancas

 

Após 32.Txb7 o match teria que ser decidido na última partida. Mas Chigorin, removeu a proteção do peão de h2 com 32.Bb4??. O match terminou depois de 32…Txh2+.

 

Mensagem de ânimo para os penduradores

Nenhum enxadrista está imune a erros, por mais forte que ele seja. Então, lembra aquela capivarada que você fez no seu último torneio? Esqueça e bola, ou melhor, peão pra frente! Muitas outras capivaradas ainda estarão esperando você em um futuro não tão distante.

Termino o artigo com um famoso ditado enxadrístico (autor anônimo):

“No xadrez, ri melhor quem ri depois. Cantei mate em três, levei mate em dois”.

 

Veja o vídeo com a explicação detalhada de cada uma dessas penduradas

Escrito por Rafael Leitão em 12.12.2017

 

 



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12 Respostas a “As 5 Maiores Penduradas da História do Xadrez”

  • Igor

    KK podia ter colocado aquela pendurada tripla do kasparov contra o anand mesmo sendo blitz aquela reacao do kasparov foi memoravel

    • Coelho

      Concordo! Ao ler a introdução me lembrei exatamente das reações do Kasparov.

  • Wéllei Rezende da Silva Júnior

    Agora estou aliviado.
    Tenho o que ler depois de dar uma pendurada.
    Pelo menos alivia a consciência.
    KKK

  • Reynaldo Carvalho

    Como Larry Christiansen conseguiu ser grande mestre diretamente, sem se tornar mestre internacional antes? Existem outros casos? Ainda é possível?

    • AI Pablyto Robert

      É possível, não é pré requisito ser MI para se tornar GM. Basta fazer as normas e obter rating de 2500 ou vencer algum torneio que outorgue diretamente o título de GM.

      • Reynaldo Carvalho

        Obrigado.

      • Igor

        Tem um menino russo da minha idade 15 anos que e mestre fide porem tem 2564 de rating com certeza ele vai vira GM antes de IM

  • Jose Gomes de Carvalho Jr.

    Então Rafael, quanto aos "capivaras" e o motivo que você desconhece, tal como relatado no início do post, vai aí uma explicação.
    Capivarol era um tônico fabricado em Juiz de Fora na primeira metade do século passado e vendido nas farmácias de todo o Brasil.
    O fabricante produzia também um Almanaque, que era distribuído gratuitamente nas farmácias, o qual trazia curiosidades, piadas, informações de utilidade pública e jogos.
    Havia uma sessão com posições de tabuleiros de xadres para análise de possibilidades de jogadas.
    Ocorre que eram bastante simples e então, dos jogadores medíocres se dizia que aprenderam consultando o almanaque Capivarol.
    Às jogadas igualmente medíocres, se passou a denominar "capivaradas" e aos seus autores, "capivaras".
    Coitado do simpático e pacifico roedor, que nada tem de medíocre!

    • Rafael Leitão

      Que história fantástica! Muito obrigado por compartilhar conosco. Finalmente agora entendi por que sobrou para as pobres capivaras!

  • Jorge Lopes

    Bravo! Este Artigo bem poderia ser chamado de soro anti-capivárico!

  • Yargoself

    Quando eu penso nesses "desatinos" eu me lembro de imediato aquela do Kasparov diante do Anand em que ele "entregou" a dama, a partida e o título. A reação de incredulidade e inconformismo com seu erro ficaram gravados na minha retina rss

  • EDSON MIYOSHI

    Uma outra pendurada: No interzonal de Petrópolis em 1973 o Smyslov pendurou uma torre contra o Bronstein. Se tivesse empatado esse jogo ficaria em segundo, empatado com o Portisch, Poluga e o Geller (o vencedor foi o Mequinho) e faria o play off com os citados (3 vagas para o candidatos). Obs: o Smyslov não estava classificado para o interzonal, substituiu o Stein que morreu na véspera do inicio do torneio.

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