Os Grandes Jogadores de Xadrez: Boris Spassky

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Os Grandes Jogadores de Xadrez: Boris Spassky

Boris Vasilievich Spassky é um grande enxadrista russo, hoje naturalizado francês, nascido em Leningrado em 1937, na antiga União Soviética. Foi campeão mundial de xadrez em 1969, quando derrotou o antigo campeão Tigran Petrosian. Boris Spassky manteve-se campeão por três anos, mas em 1972 na disputa que ficou conhecida como “Match do Século”, entre ele e o enxadrista norte-americano Bobby Fischer, o desafiante venceu o defensor do título mundial. Saiba mais da história deste que é um dos grandes enxadristas da história!

O início de tudo

Assim como muitos dos grandes enxadristas da história, Spassky começou a jogar xadrez muito jovem, aos cinco anos, durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto fugia de Leningrado. Sua primeira aparição no cenário nacional soviético, que chamou a atenção de muitos, foi aos 10 anos quando Spassky venceu Mikhail Botvinnik, o campeão Soviético, em uma exibição de partidas simultâneas. Ter sobrevivido ao “cerco de Leningrado” deixou marcas profundas no caráter de Boris, que defendeu valores humanitários durante toda sua vida.

 

O desenvolvimento como enxadrista

A progressão do jovem Boris como enxadrista foi muito rápida devido ao talento do rapaz. Aos 16 anos já debutava como um jogador internacional em um torneio na Romênia. Nesta ocasião, terminou em quarto lugar. Assim, ganhou o título de MI, “Mestre Internacional”, dado apenas aos jogadores que se destacavam internacionalmente e considerado como pré-requisito para alcançar o título de GM, Grande Mestre, título que na época era concedido apenas a um seleto grupo de enxadristas (atualmente o título é bem mais fácil de ser alcançado). E foi aos 18 anos que recebeu a honraria, a mais importante ao lado do título de campeão mundial: Boris Spassky tornara-se um Grande Mestre, o mais jovem até então (hoje, o mais jovem GM é Sergey Karjakin, ucraniano que ganhou o título aos 12 anos e 7 meses de idade).

Também aos 18 anos Spassky se sagrou Campeão Mundial Juvenil, em torneio disputado em 1955 em Antuérpia, na Bélgica. Seu primeiro título soviético foi em 1961 e o segundo e último em 1964. O enxadrista russo teve, então, uma sequência negativa de resultados para se classificar para o campeonato mundial até que, finalmente, em 1966, 11 anos depois do título de Grande Mestre e de Campeão Mundial Juvenil, classificou-se para o ciclo final do Campeonato Mundial de Xadrez. Em um dos matches (série de partidas contra um outro desafiante) para chegar à final, teve que enfrentar o campeão mundial de 1960, Mikhail Tal, o “Mago de Riga”, conhecido por seu estilo tático agressivo e extremamente criativo de jogo. Fazendo uso de suas estratégias que se adaptavam muito bem aos jogos dos adversários, o “estilo universal” de Spassky conseguiu segurar Tal, uma vez que Boris fez uso de jogadas mais comedidas para controlar e vencer a partida. Essa vitória levou Spassky ao primeiro match final com Tigran Petrosian, em 1966. O tenso embate terminou com a vitória e defesa de título de Petrosian (12,5 – 11,5), quando por pouco Spassky não se tornou o campeão mundial.

Mesmo assim, mantendo o foco e a persistência, o resultado deu a ele a oportunidade de enfrentar Petrosian novamente três anos depois, em 1969, quando foi novamente o vencedor do ciclo de candidatos ao título. Boris Spassky era, àquela altura, uma força imparável e finalmente venceu (12,5 – 10,5) em Moscou e tornou-se o grande campeão mundial.

 

O declínio

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O período de Spassky como enxadrista campeão do mundo durou três anos até a chegada do fatídico “Match do Século”, disputado em Reykjavík pelo soviético e pelo desafiante norte-americano Bobby Fischer, no ano de 1972. O cenário político histórico é algo interessante de se abordar nesse match tendo em vista que a disputa ocorria no ápice da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, trazendo uma carga simbólica muito forte à disputa. Os dois enxadristas já haviam se enfrentado algumas vezes e Fischer nunca havia vencido Spassky.

O match começou de maneira incrível, com um dos erros mais misteriosos da história do xadrez. Fischer, em posição tecnicamente empatada, captura um peão “envenenado” e perde. Veja as análises desta partida clicando aqui.

Na segunda partida, reclamando das condições da sala de jogo, Fischer não compareceu e o escore ficou 2-0 para Spassky.

Talvez perturbado pelo estranho rumo do match, Spassky jogou as partidas restantes abaixo do seu nível regular e o enxadrista norte-americano foi amplamente superior, vencendo por 12,5 – 8,5.

Muitos criticaram Spassky pelo treinamento preparatório para a partida, alegando que, nesse sentido, Bobby Fischer havia se preparado bem mais. A derrota custou não só o título mundial, mas também desestabilizou a relação entre Boris e o xadrez. O enxadrista russo voltou para a União Soviética de cabeça baixa.

Ainda assim, Spassky se tornaria o campeão soviético no ano seguinte (1973), quando enfrentou vários dos Grandes Mestres da União Soviética. Isso indicava um esboço de progresso para a possível volta de Boris Spassky ao cenário internacional. No entanto, em 1974, apesar de começar vencendo o primeiro match do Ciclo de Candidatos, perdeu nas semifinais para Anatoly Karpov, que mais tarde se tornaria Campeão Mundial (pois Fischer se recusou a enfrentá-lo) e um dos maiores enxadristas da história.  Em 1976, em razão dos últimos resultados negativos e ao avanço de outros enxadristas, Boris Spassky foi forçado a disputar o Torneios Interzonal, classificatório para o Ciclo de Candidatos.

Com um desempenho bem diferente do antigo, terminou o Torneio Interzonal apenas na décima colocação e só foi possível que ele fosse nomeado para o próximo Ciclo, porque Bobby Fischer havia desistido de sua vaga. Em 1977 começou bem novamente as suas disputas, mas problemas de saúde e o cansaço o atrapalharam bastante. Mesmo assim, chegou à final contra o lendário Viktor Korchnoi e ainda que tenha vencido uma sequência de quatro jogos, ao final perdeu por 10,5 – 7,5.

O vice-campeonato o deu o direito de disputar o Ciclo de Candidatos de 1980, do qual Spassky não tirou proveito, sendo eliminado precocemente por Portisch. Em seguida, no ano de 1982, não se classificou no Interzonal e perdeu o direito de entrar nas preliminares para desafiar o campeão mundial, Anatoly Karpov, que defendia o título desde 1975 e manteve-se como campeão até 1985. E 1985 foi justamente o último ano em que Boris Spassky disputou os Candidatos, dessa vez nomeado como escolha dos organizadores.

 

O brilho que não se apaga

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A carreira de Spassky como enxadrista começou muito cedo e ele obteve grandes conquistas e sucessos ao longo da vida. Dono de um estilo camaleônico de jogar xadrez, inspirou, inspira e inspirará muitos outros enxadristas. Somou dois títulos soviéticos e três anos mantendo o título mundial em sua carreira.

Mais do que isso, Spassky é respeitado e admirado pelo seu caráter e por sua elegância, tanto na vitória quanto na derrota. Diz a lenda que ele próprio aplaudiu Bobby Fischer ao perder a sexta partida do match. Também é importante ressaltar que ao longo de sua carreira ajudou diversas pessoas que, como ele, passaram fome durante o cerco de Leningrado. Muitos grandes mestres já relataram que conviver com Spassky é um aprendizado para toda a vida.

Ele é, com certeza, um dos grandes enxadristas da história.

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Comments ( 6 )

  • CEMC

    Os soviéticos eram muito pirados nisso de exigir e não aceitar que pode ter alguém melhor. Mais que o próprio jogador que era que deveria ter se abalado ou não. Eu também não gosto de perder, mas o que os soviéticos faziam, era muita loucura, digo nessa exigência louca. Eu vejo muitos arquivos (sou um aficcionado por esportes em geral e sim, vejo muitas coisas antigas e o youtube nos proporciona isso :D) um treinador descascando uma pobre ginasta numa olimpíada por algum errinho que ela cometeu, mas descascando, como se ela tivesse sei lá, entrado no quarto do pai e destruído o quarto, roubado, sei lá, mas o treinador destruiu a pobre guria e cara…eu também não curto errar, nem perder, mas aquilo que o treinador fez era muita loucura, pobre da guria ..nossa.. e essas histórias que tenho lido, do Taimanov que tomou 6-0 e os cara cortaram tudo dele como se não fosse nada, não entendendo que o Fischer era aficionado por aquilo e genial naquilo, sei lá, entre outras histórias, muita loucura lol..

  • CEMC

    Naquela época o campeonato soviético tinha status de mundial. Não era o mundial, mas tinha status de mundial. Acho que desde os anos 50 até os anos 80, vencer o campeonato soviético, era vencer um campeonato com status de mundial. Até porque só Fischer ganhou um mundial neste período, o resto foi só soviético.

  • Bruno

    O xadrez não é um esporte popular como o futebol, mas quando aconteceu o Match Fischer x Spassky o Mundo inteiro acompanhou aquilo. Foi o momento mais popular da História do xadrez ao lado das partidas entre Kasparov e Deep Blue.
    Sem dúvidas o Spassky era um jogador experiente, ele é uma lenda viva.

  • Maercio Perez Martini

    Job well done. Thanks a lot. Muito legal sou fã incondicional do Spassky onde acho uma coletânea dos seus jogos?

  • Maercio Martini

    Muito legal sou fã incondicional do Spassky, Mestre onde acho uma coletânia dos jogos do Spassky?

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