Grandes Torneios: Campeonato Mundial de Xadrez de 1948

O Campeonato Mundial de Xadrez de 1948, além de ser um divisor de águas para os torneios da FIDE pela disputa do título de campeão mundial, envolve circunstâncias especiais e uma grande rivalidade entre os enxadristas, o que reveste a competição de uma mística que a torna um dos grandes eventos da história do esporte. Confira!

 

A Morte do Campeão Mundial

Em 24 de março de 1946, o mundo enxadrístico se viu, de uma hora para a outra, órfão. Morria o então campeão mundial Alexander Alekhine – fato que jamais se repetiu na história do jogo.

Alekhine faleceu em um hotel de Estoril, em Portugal, justamente quando se preparava para o match contra Mikhail Botvinnik na defesa pelo título mundial. Com isso, houve a necessidade de se realizar um evento que definisse o novo campeão de xadrez do mundo. A morte de Alekhine, aliás, engasgado com um pedaço de carne, ocorreu em circunstâncias até hoje pouco esclarecidas e teorias da conspiração não faltam…

Naquela época, a coroa máxima do xadrez era disputada em matches entre o então detentor do título e um desafiante, que não necessariamente era o adversário mais forte, mas sim, por muitas vezes, aquele que conseguia o patrocínio suficiente para promover a competição.

No entanto, o falecimento de Alekhine mudou o rumo das coisas e, em 1948, foi disputado o evento que marcou o início da organização do Campeonato Mundial de Xadrez pela FIDE.

 

O Campeonato Mundial de Xadrez de 1948

O Campeonato Mundial de Xadrez de 1948 foi disputado em duas etapas, uma ocorrida na cidade de Haia e a outra, na cidade de Moscou, entre os dias 02 de abril e 16 de maio.

Com a morte dos campeões mundiais Alekhine, Lasker e Capablanca, o evento foi disputado pelos 5 principais grandes mestres remanescentes: Mikhail Botvinnik (Ex-URSS), Vasily Smyslov (Ex-URSS), Paul Keres (Ex-URSS), Samuel Reshevsky (EUA) e Max Euwe (HOL).

Os enxadristas jogaram entre si, em uma disputa melhor de cinco partidas. Confira a tabela final do torneio:

 

tabela campeonato mundial de xadrez de 1948

O Fator Guerra Fria

O Campeonato Mundial de Xadrez de 1948 foi realizado nos primeiros anos da Guerra Fria e o jogo era usado como arma de propaganda da hegemonia soviética. Nesse cenário, vencer a competição era uma questão vital para os comunistas.

As chances eram grandes, já que a extinta União Soviética tinha 3 representantes no torneio. No entanto, o enxadrista preferido do partido comunista – e do próprio Stalin – era, indisfarçavelmente, Mikhail Botvinnik.

Mas nem mesmo a menina dos olhos dos soviéticos escapou das pressões. Durante a etapa do torneio que se realizou em Moscou, em um dado momento, Samuel Reshevsky representou uma verdadeira ameaça à liderança do Patriarca do Xadrez Soviético. Ao final de uma das partidas, os jogadores se cumprimentaram e o que aconteceu em seguida foi relatado com riqueza de detalhes por Daniel Johnson em seu livro Rei Branco e Rainha Vermelha: Como a Guerra Fria foi disputada no tabuleiro de xadrez (Editora Record, 2013, p. 101):

“[…] No dia seguinte, Botvinnik foi convocado ao Comitê de Esportes. O presidente, general de divisão Arkadi Apollonov, foi direto ao ponto:

– Mikhail Moisseievitch, como pode você, um comunista, parabenizar um americano por vencer uma partida contra um jogador soviético? E numa hora em que está sendo conduzida uma batalha contra se curvar ao Ocidente?

Botvinnik não hesitou:

– Você me chamou aqui para isso, Arkadi Nikolaievitch? Desculpe-me, mas tenho que me preparar para o próximo jogo. – E então foi embora.

Foi um risco colossal, mas Botvinnik estava confiante de que contava com apoio suficiente nos altos níveis do partido para ignorar semelhantes tentativas de intimidação. Apenas para se garantir, porém, ligou imediatamente para um de seus amigos no Comitê Central. Se o americano, que se apagou na segunda metade do torneio, terminando empatado na terceira posição, houvesse ganhado o título, Stalin talvez tivesse cancelado o apoio não apenas a Botvinnik, mas também ao próprio xadrez.”

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Ainda assim, o certo é que Botvinnik gozava de muito prestígio e, por causa disso, as suspeitas de que o partido comunista teria atuado para que Paul Keres não representasse uma ameaça real ao seu título sempre rondaram a biografia do Patriarca.

O estoniano Keres era preterido pelos soviéticos por ter supostamente colaborado durante a ocupação nazista. Em 1945 sua prisão chegou a ser ordenada, o que não se concretizou. Apesar disso, ele teve sua casa confiscada e foi banido do xadrez de alto nível, o que somente foi revogado pelo Ministro do Exterior, Molotov, em 1946.

O próprio Keres teria revelado ao historiador britânico Ken Whyld que fora avisado de que era melhor ele não ser o responsável por Botvinnik não conquistar o título mundial.

Em uma entrevista, cerca de 50 anos mais tarde, Mikhail Botvinnik teria dito que não só Keres, mas também Smyslov fora pressionado pelo partido por ordem de Stalin. O GM russo Iuri Averbakh refutou o episódio, admitindo, no entanto, a possibilidade de tais ordens terem sido emitidas por autoridades hierarquicamente inferiores, no afã de agradar o líder. Uma das melhores partidas do torneio, por sinal, foi a vitória de Smyslov contra Reshevsky.

Apesar de tal fato nunca ter sido confirmado, Paul Keres jogou muito bem contra seus outros adversários e teve uma dramática atuação contra Botvinnik, perdendo as quatro primeiras partidas, o que se mostrou decisivo para a conquista do torneio.

 

O Campeão Mikhail Botvinnik

Mesmo com as suspeitas de favorecimento que jamais se confirmaram, há o consenso de que Botvinnik possuía reais condições de tornar-se o campeão por seus próprios méritos.

Com ou sem favorecimento, Mikhail Botvinnik sagrou-se o Campeão Mundial de Xadrez de 1948, permanecendo com a coroa até 1957, quando foi destronado por Vasily Smyslov.

Após a revanche, ele retornou a seu posto de 1958. Em 1960, novamente Botvinnik perdeu a coroa, mas desta vez para Mikhail Tal. Reconquistou o título em 1961, permanecendo até 1963, quando Tigran Petrosian tornou-se o mais novo campeão de xadrez do mundo. Uma das melhores partidas de Botvinnik neste torneio foi sua vitória contra o ex-campeão mundial Max Euwe.

 

Gostou de conhecer a história do Campeonato Mundial de Xadrez de 1948? Confira também o artigo sobre a trajetória de seu campeão, Mikhail Botvinnk!

 

3 Respostas a “Grandes Torneios: Campeonato Mundial de Xadrez de 1948”

  • Cléber Santos

    Sensacional ... isso tudo é inspirador ...

  • Themeron

    Ótima matéria!

  • Gustavo Brandão Messenberg

    A conquista de Botvinnik, no contexto que ocorreu, era questão de tempo.
    Foi motivada principalmente pela popularização do jogo de Xadrez na URSS, um dos projetos iniciados por volta de 1920 com a Revolução de Outubro. E a hegemonia soviética no xadrez que seguiu e perdurou por muito tempo, de certa forma e sob algum ponto de vista repercute até os dias de hoje, apesar da extinção da URSS.
    A Federação Soviética de Xadrez naqueles idos de 1946/1948 mantinha relacionamento próximo do informal com a FIDE. Mas por interesse próprio mudou de posicionamento e assim pode ter influência na política e no trato de assuntos enxadrísticos de maneira geral. Formalizou-se assim as condições para a realização do Campeonato Mundial e o regulamento para os próximos ciclos.
    Quanto ao 'mistério de Keres' em outra ocasião valeria a pena entrar no assunto. O grande Paul Keres é até hoje tratado como herói e celebridade na Estonia. Menciono 'en passant' um comentário emitido pelo GM John Nunn , que foi quem fez a revisão analitica da obra 'El Ajedrez Como yo lo Juego' para uma reedição mais recente. Em virtude desse trabalho ele pode se aprofundar nas partidas e nos comentários de Keres e acabou se tornando um admirador do estoniano. O britânico diz que 'não se convenceu' de que Keres tenha perdido deliberadamente algumas partidas para Botvinnik. Acrescenta alguns argumentos para embasar seu posicionamento, mas não é CONCLUSIVO, principalmente porque não há prova documental que mude o seu convencimento
    Para finalizar e pelo teor subjacente que contém descrevo fato pitoresco que ocorreu em Moscou nas últimas rodadas, mencionado por Botvinnik:
    ' - Durante a partida contra Max Euwe, Botvinnik tinha grande vantagem na tabela classificatória sobre os demais competidores e o empate assegurava-lhe matematicamente o título. Ao efetuar o lance 14-b4 o holandês respondeu 14-...Tfe8.
    Mesmo sem efetuar a próxima jogada o soviético propôs empate. Euwe queria continuar jogando, todavia a posição não oferecia perspectivas para jogar a ganhar. Hoje em dia quando coloco essa posição no Fritz 15 é indicado equilibrio. Fritz sugere acionar uma das torres brancas.... Mas, voltando a narrativa, Euwe aceitou o empate e felicitou Botvinnik que com com o resultado garantia o título.
    Seguiu-se no ambiente festiva manifestação de jubilo do público presente provocando a interrupção das outras partidas. O iugoslavo Milan Widmar que atuava como arbitro principal teve que intervir e somente após alguns minutos a situação se normalizou.
    Jacob Estrin, comentarista para o público, efetuava novamente 14-b4 na tela para os filmadores que não captaram o lance na hora certa. Queriam imortalizar o momento.
    Botvinnik conta em seu livro que essa 'história do peon b' não terminou aí, pois a soviética Elizabeta Bykova o levou como talismã quando conquistou o seu primeiro título mundial de xadrez feminino. E que o comentarista que tocou esse 'mágico peão' alguns anos mais tarde foi campeão mundial de xadrez epistolar'.

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