O Que Tenho Aprendido Ensinando Xadrez

Artigo escrito pelo MN Nicolau Leitão

Eu cresci jogando xadrez. Esse era o processo natural em nossa casa no bairro do São Francisco, em São Luís. Nós somos filhos de um apaixonado pelo jogo, que ensinou a todos os filhos, talvez em ato de gratidão e reconhecimento ao potencial pedagógico. Assim, começando cedo, eu cheguei a conquistar bons resultados e me tornei Mestre Nacional, mas nunca cheguei a ter reais aspirações de ser um jogador profissional.

Certamente essa não é uma variante forçada para quem quer fazer algum dinheiro com o que ama. É possível dar aulas, seja como fonte de renda principal ou como um extra. E nessa área acumulei boa experiência, como professor particular, diretor de escola, responsável por projetos em escolas particulares (sala de aula, escolinha e seleção), bem como com a histórica missão de supervisionar o Xadrez nas Escolas do Maranhão. Dito tudo isso, ofereço algumas análises:

 

1- Você não precisa, necessariamente, ser um jogador muito forte para oferecer aulas a iniciantes

Lembra do nosso pai? Ele chegou a ter algum destaque em âmbito local, mas nada que o colocasse, por exemplo, na condição de candidato a mestre. Ainda assim, ele foi capaz de orientar com excelência Rafael nos primeiros anos de carreira. Ele sabia reconhecer o que era um bom livro e o que era importante estudar, além de estimular que o jovem maranhense fosse confiante e acreditasse que a falta de tradição não seria um impedimento.

 

2- Muitos pais irão imaginar que você fará dos filhos mini gênios no lapso de algumas poucas semanas

Com esse tipo de experiência, eu passei a distribuir cartas aos responsáveis, explicando que o trabalho é de longo prazo e também uma linha auxiliar a tantas outras variáveis. Nada de blefe ou propaganda enganosa.

 

3- Os pais colocam os filhos no xadrez para desenvolver a cognição.

As crianças querem se divertir. Acho difícil convencer um menino de sete anos a insistir nos treinos com a promessa de melhora de rendimento escolar. O espaço precisa ser envolvente, atrativo. É preciso entrar no universo deles para motivá-los. Ainda assim, alguns (ou muitos) você não vai conseguir cativar. Peão pra frente.

 

4- É preciso ter clareza sobre os objetivos principais de cada aula

É um projeto de sala de aula? O desafio maior é conseguir com que todos sejam capazes de interagir, independente do tema, e recebam estímulos de concentração, paciência, autocontrole, poder de decisão, raciocínio analítico e sintético etc. Escolinha ou seleção? É possível aprofundar mais na teoria do jogo em si. Mas são muitas as variáveis: qual a idade dos participantes? Já competem? Quais são as aspirações? Estilo de jogo? Personalidade? Enfim, outro dos muitos méritos do xadrez é o de desenvolver particularidades.

 

5- Não existe uma exigência legal para dar aulas de xadrez

Não é necessário ter um curso de licenciatura, pedagogia ou registro no Conselho de Educação Física. No entanto, certamente será produtivo investigar linhas científicas que estudam, por exemplo, as fases do desenvolvimento cognitivo, psicologia educacional, aprendizagem significativa, autonomia do estudante, dentre tantas outras. Sem querer estabelecer uma regra, eu sou um defensor da afetividade. Do elogiar antes de criticar. De manter a voz serena. Sem querer concluir de forma piegas, para mim, definitivamente, lecionar é um ato de amor!

One Reply to “O Que Tenho Aprendido Ensinando Xadrez”

  • Ivan

    Muito bom o artigo. Ensinar e aprender é viver de verdade. O jogo de xadrez transfere a guerra para o tabuleiro e pode pacificar a humanidade. Parabéns pelo trabalho!

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