Grandes Enxadristas: Conheça a História de Tigran Petrosian

Grandes Enxadristas: Conheça a História de Tigran Petrosian

 

Uma Nova Abordagem

A beleza do xadrez não é encontrada somente em sacrifícios complexos de duas, três ou até mais peças que culminam em um surpreendente xeque-mate ao rei. Também existe beleza na simplicidade, na harmonia das peças, que se tornam capazes de evitar as ideias do rival, antes mesmo da existência de uma ameaça concreta.

E esse foi o grande legado de Tigran Vartanovich Petrosian (1929-1984) para o xadrez. Sua capacidade de criar posições com tais características nem sempre era compreendida. A profundidade do seu estilo era menos vistosa que os ataques de Alexander Alekhine ou Mikhail Tal.

“Sim, talvez eu prefira me defender a atacar. Porém, quem demonstrou que a defesa é menos arriscada e perigosa que o ataque? Por acaso, são tão poucas as partidas que ocupam um posto de privilégio na história do xadrez graças a uma virtuosa defesa? O que eu mais valorizo no xadrez é a lógica. Estou firmemente convencido de que no xadrez nada é acidental. Esta é a minha crença. Só creio no jogo lógico e correto”, palavras de um campeão frequentemente questionado por seu estilo.

A verdade é que, em seus melhores anos, Petrosian perdia tão poucas partidas que suas raras derrotas viraram notícia.

 

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Tigran Petrosian em 1962

 

O Início da Lenda

Petrosian nasceu em Tbilisi, a capital da Geórgia, porém, como era filho de pais armênios, teve sua vida atrelada a este país. Seu treinador foi o mestre Arjil Ebralidze, um grande admirador de Capablanca e Nimzowitsch.

Em 1945, aos 16 anos, venceu o Campeonato Nacional da Geórgia. No ano seguinte, tornou-se campeão soviético juvenil. Contudo, o seu primeiro grande êxito a nível internacional aconteceu no Zonal e 19º Campeonato da URSS de 1951, quando compartilhou a segunda colocação com Geller, atrás de Paul Keres, e garantiu vaga no Interzonal.

No Interzonal de Estocolmo (1952), Petrosian mais uma vez teve uma boa atuação e ficou na segunda colocação, atrás de Kotov, classificando-se para o Torneio de Candidatos de 1953, realizado na cidade de Zurique.

Em Zurique, Petrosian terminou na 5ª colocação. Um desempenho digno para um jovem que estava se consolidando na elite mundial.

 

Sacrifícios de Qualidade

Petrosian entendeu os sacrifícios de qualidade como nenhum outro enxadrista. Enquanto Alekhine e Tal sacrificavam para acelerar o desenvolvimento e atacar o rei, os sacrifícios de Petrosian eram diferentes, bem mais difíceis de entender, pois se baseavam em fatores posicionais de longo prazo.

Com relação ao legado das ideias de Petrosian, existe uma curiosa história de uma partida de Tarrasch. Até então, os enxadristas avaliavam a posição como ganha para as brancas, pelo fato de terem uma qualidade a mais. Curiosamente, hoje, qualquer enxadrista de força mediana avalia a posição como favorável às pretas.

Muitas décadas passaram para tal revolução, porém, Petrosian tem uma gigantesca importância nesse sentido. Ele teve um papel chave em considerar os limites da possível aplicação do sacrifício de qualidade.

[Confira um excelente sacrifício de qualidade de Tigran Petrosian]

 

Invencibilidade

Depois da boa atuação no Torneio de Candidatos de 1953, Petrosian ficou invicto durante dois Campeonatos Soviéticos consecutivos, e também não perdeu no Interzonal de Gotemburgo – 1955, quando terminou na quarta colocação e se classificou pela segunda vez para o Torneio de Candidatos.

Em Amsterdã 1956, Petrosian compartilhou a terceira colocação do Torneio de Candidatos, empatado com 4 jogadores (Szabo, Spassky, Bronstein e Geller)  e atrás de Smyslov e Keres.

 

Profilaxia

Uma das bases do xadrez de Petrosian foi a profilaxia: ideia de restringir as possibilidades do oponente antes que se tornasse uma ameaça concreta. Foi baseado nesse conceito que o enxadrista criou sistemas de aberturas, no qual se destaca a variante contra a Defesa Índia do Rei e também contra a Índia de Dama.

De todo modo, é importante ressaltar que, se Petrosian fosse muito bom só no jogo posicional e não contasse com uma evidente habilidade tática, ele não teria como se tornar um enxadrista tão poderoso.

 

Força no Blitz

E a prova dessa força tática ele demonstrava nas partidas de blitz. No verão de 1958, um jovem chamado Bobby Fischer (15 anos) foi até Moscou e começou a derrotar vários mestres soviéticos em partidas blitz. Rapidamente Petrosian foi convocado para ir até o clube central com a missão de “educar” o garoto. Segundo Evgeni Vasiukov, naquele dia, apenas ele e Petrosian conseguiram terminar com uma pontuação positiva contra Fischer.

 

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Fischer x Petrosian – 1958

 

Em Busca da Coroa

Em 1959, Petrosian conquistou o primeiro dos seus quatro títulos soviéticos. Os outros títulos foram conquistados em 1961, 1969 e 1975. Ainda em 1959, Petrosian voltou ao Torneio Candidatos, realizado em Belgrado, para terminar na terceira colocação, atrás de Mikhail Tal e Paul Keres.

No Interzonal de Estocolmo – 1962, Petrosian terminou mais uma vez invicto, com 8 vitórias e 14 empates e compartilhou a segunda colocação com Geller. Bobby Fischer venceu o torneio com 13 vitórias e 9 empates!

De todo modo, o trio garantiu vaga para o Torneio de Candidatos – Curaçao 1962. Petrosian ficou com o título com 17,5 pontos, seguido por Geller e Paul Keres, ambos com 17.

Bobby Fischer terminou em quarto com 14 pontos e acusou os enxadristas soviéticos de jogarem em equipe, empatando entre em si e lutando com toda a força contra os demais adversários. A partir de então, o Torneio de Candidatos passou a ser disputado em formato eliminatório.

 

Campeão Mundial

Tigran Petrosian tornou-se campeão mundial em 1963, dando fim a era Botvinnik. O placar do match foi de 12,5 x 9,5, ou 5×2, descontando os empates.C:UsersUserDesktopBotvinnik-petrosian.jpgBotvinnik x Petrosian – 1963

 

Em 1966, Petrosian defendeu o título contra Boris Spassky com uma vitória apertada por 12,5 x 11,5. Porém, em 1969, justamente no dia do seu 40º aniversário, Petrosian perdeu o título para o próprio Spassky por 12,5 x 10,5.

 

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Petrosian x Spassky

 

A Luta Continua

No primeiro ciclo como ex-campeão mundial, Petrosian chegou à Final do Torneio de Candidatos de 1971 após vencer Hubner e Korchnoi. Na decisão enfrentou o incrível Bobby Fischer, que vinha de 19 vitórias consecutivas (as 7 últimas rodadas do Interzonal – apesar de que a vitória contra Panno foi por ausência, 6×0 em Mark Taimanov e 6×0 em Bent Larsen).

Petrosian perdeu a primeira partida, venceu a segunda e manteve o equilíbrio até a quinta rodada. A partir de então, Fischer venceu 4 jogos consecutivos e concretizou sua vitória no match por 6.5 x 2.5. Tigran voltou ao Torneio de Candidatos em 1974, 1977 e 1980, porém, nas três ocasiões acabou eliminado por Viktor Korchnoi, duas vezes nas quartas de final e uma na semifinal.

 

O Rei das Olimpíadas

O brilhante histórico de Petrosian em Olimpíadas de Xadrez também chama a atenção. Em 9 participações pela equipe soviética, quatro delas no primeiro tabuleiro, conquistou 9 medalhas de ouro e só perdeu uma única partida em todas as suas atuações, para Robert Hubner.

 

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Texto escrito pelo MF William Ferreira Cruz

Referências Bibliográficas: Meus Grandes Predecessores, Garry Kasparov, Volume 3.

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