Ennio Morricone: “Eu queria ser um Grande Mestre, como o Kasparov”

A conexão entre xadrez e música é marcante ao longo da história. Não à toa que Siegbert Tarrasch, consciente dessa ligação, disse a célebre frase: “O xadrez, assim como o amor e a música, tem a virtude de fazer um homem feliz”.

 

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O fato é que alguns enxadristas de destaque também foram músicos renomados ou vice-versa. O fantástico François-André Danican Philidor é o exemplo mais clássico. O francês foi claramente o melhor enxadrista do século XVIII e também teve uma carreira musical destacada, sendo um dos principais compositores de ópera na França.

O pianista soviético Mark Taimanov também ficou marcado na história do xadrez. Campeão Soviético em 1956, é sempre lembrado pelo 6×0 que levou de Bobby Fischer no Torneio de Candidatos de 1971.

Esses são dois exemplos de grandes enxadristas que também fizeram carreira na música.  Contudo, o artigo de hoje é uma homenagem para o genial Ennio Morricone, um músico brilhante que também gostava de xadrez.

 

Ennio Morricone (1928 – 2020)

 

Morricone

Ennio Morricone

 

Italiano, Morricone faleceu no último dia 6 de julho de 2020, aos 91 anos.  Sua carreira musical foi marcada pela criação de trilhas sonoras de inúmeros sucessos do cinema, em especial de filmes de faroeste. Recebeu o Oscar Honorário em 2007 e ganhou o prêmio (de forma competitiva) em 2016.

Se você não conhece o trabalho desse brilhante maestro, busque suas composições no YouTube. Vale a pena conferir!

Morricone não era um enxadrista tão forte quanto Philidor ou Taimanov, mas o seu amor pelo xadrez é inegável. Em 2007, depois de ganhar o Oscar, foi perguntado na TV italiana se gostaria de algo mais na vida. Sua resposta foi surpreendente: “Eu queria ser um Grande Mestre de Xadrez, como o Kasparov”.

Ennio Morricone aprendeu a jogar aos 11 anos e participou de torneios nas décadas de 1950 e 1960. Teve aulas com o campeão italiano MI Stefano Tatai. Porém, o auge da sua breve carreira como enxadrista foi o empate com Boris Spassky, em uma simultânea no ano 2000.

Quando os concertos de Morricone eram realizados na mesma cidade de um torneio, o músico fazia questão de receber os enxadristas ou até mesmo visitar o local de jogos. Desta maneira jogou partidas amistosas contra Garry Kasparov, Anatoly Karpov, Judit Polgár e Peter Leko.

Você pode ver a partida de Morricone contra Judit Polgár aqui.

A real força do músico no xadrez não é tão clara, mas estima-se que Morricone tivesse o nível de um enxadrista de 1700 pontos de rating FIDE, talvez até um pouco menos.

Sobre a conexão xadrez e música, afirmou:

“Com o tempo, descobri que existem fortes laços entre o xadrez e o sistema de notação musical. (…) Existem analogias entre as duas disciplinas e o progresso em um campo muitas vezes está vinculado ao progresso no outro. 

Não é por acaso que matemáticos e músicos estão geralmente entre os melhores jogadores de xadrez. Tomemos Mark Taimanov – um pianista e jogador de xadrez excepcional – Jean-Philippe Rameau, Sergei Prokofiev, John Cage, meus amigos Aldo Clementi e Egisto Macchi. 

O xadrez está relacionado à matemática e a matemática está relacionada à música, como Pitágoras afirmou. E isso é ainda mais verdadeiro para o tipo de música que Clementi compôs, uma música substancialmente baseada em linhas de tom, números e combinações, os mesmos elementos chave do xadrez”, analisou Morricone.

 

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Texto Escrito pelo MF William Ferreira da Cruz

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