Karpov x Sveshnikov Onde os Fracos Não Têm Vez

“Sempre gostei de ouvir história dos antigos.
Nunca perdi uma oportunidade.
É impossível não nos compararmos a eles.
Impossível não se perguntar como fariam nos dias de hoje”.
(Xerife Ed Tom – personagem interpretado magistralmente por
Tommy Lee Jones no clássico Onde os fracos não têm vez, 2007)

 

 

O ex-campeão mundial Anatoly Karpov e o eterno teórico Evgeny Sveshnikov se enfrentaram em um duelo de seis partidas rápidas na capital da Letônia, Riga, entre os dias 7 e 9 deste mês.

O encontro, sendo na Letônia, e em Riga, não poderia ter sido num local mais apropriado: um complexo de apartamentos chamado “Residencial Tal” – sim, isso mesmo. O Residencial leva o nome do ex-campeão mundial Mikhail Tal, “o mago de Riga” (além de várias referências ao xadrez em sua fachada).

O 11º Campeão Mundial, evidentemente, dispensa apresentação. De todo modo, Karpov, com simbólicos 64 anos, embora afastado dos tabuleiros há alguns anos ainda chama atenção por onde passa – e sempre chamará. Embora seja menos afeito a holofotes como seu eterno rival, Garry Kasparov, ainda é possível encontrá-lo promovendo o xadrez, como foi o caso deste match amistoso.

Já Sveshnikov (65 anos), duas vezes campeão da Letônia, é mais conhecido pelas suas inestimáveis contribuições teóricas, especialmente na variante da Defesa Siciliana que leva seu nome (1.e4 c5 2.Cf3 Cc6 3.d4 cd4 4.Cd4 Cf6 5.Cc3 e5), embora suas pesquisas em outras linhas, como a variante do avanço na francesa e mesmo a Alapin contra a Defesa Siciliana, não sejam menos importantes. Suas investigações teóricas, e o êxito que conseguiu com elas frente a diversos jogadores da elite mundial, e durante muito tempo, com toda certeza colocam o nome de Sveshnikov no “Panteão” do xadrez – sobretudo com os grandes pesquisadores que, embora não tenham alcançado o título máximo, conseguiram elevar a teórica do jogo: Tarrasch; Nimzowitsch; Taimanov; dentre outros.

Ao melhor estilo de um faroeste moderno, como no genial “Onde os fracos não têm vez”, de 2007 (baseado no romance “No Country For Old Men”, do escritor norte-americano Cormac McCarthy): silencioso e filosófico. Os veteranos, embora fora de forma, conseguiram demonstrar que apesar do cansaço do corpo, algo da técnica sempre sobrevive. “No Country For Old Men”? Não no velho-oeste; não no bom xadrez: nesses lugares sobrevivem as lendas e não os anos.

O encontro terminou em 4:2 para Karpov – empate apenas na primeira e na última partida. Já na segunda partida Sveshikov, de brancas, como um bom antagonista, deixou uma cicatriz no xerife e saiu na frente. Mas aqui, no velho-oeste, o mocinho não escapa de todos os tiros possíveis e depois de apanhar muito resolve tudo numa reviravolta milagrosa.

Não, não aqui: tendo bala o tiro é certeiro – sem alarmes e sem misericórdia. Karpov venceu a terceira, quarta e quinta partidas de forma convincente e sem desperdiçar muita munição. Veja as análises da segunda e da terceira partidas, com uma vitória para cada jogador, clicando aqui.

Vida longa a toda as lendas:

“… e eu fico sempre voltando a eles (os velhos). Eles olham para mim e há sempre uma pergunta. Anos atrás eu não me lembro que fosse assim. Não me lembro que fosse assim quando eu era xerife lá pelos anos cinquenta. Você os vê e eles não parecem nem mesmo confusos. Parecem simplesmente loucos. Isso me incomoda. É como se eles acordassem e não soubessem como chegaram onde estão. Bem, num certo sentido não sabem.”

Link para as 6 partidas: clique aqui.

Fonte e fotos: Chessbase.

Escrito por Equipe Academia de Xadrez Rafael Leitão em 19.07.2015.

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