Termina o Torneio de Haian Danzhou na China

“Não despertem a China. A China é um gigante adormecido”.

Napoleão Bonaparte

Desde a Revolução Cultural, em 1966, encabeçada pelo líder Mao Tsé-Tung, a República Popular da China virou um grande mistério para o mundo ocidental. Atualmente o centro das interrogações é a sua “economia de mercado socialista” – que é, explicando em termos enxadrísticos, mais ou menos como jogar um Gambito do Rei buscando o jogo posicional e as manobras. Além disso, ou por conta disso, os resultados expressivos que vem conseguindo em diversos esportes – com vários e intensos centros esportivos espalhados por todo o país (sim, bem aos moldes da Ex-URSS) – também chamam a atenção. E dentro desses resultados, claro, vem o nosso xadrez.

Se pensarmos o que era, ou quem era, a China no xadrez mundial alguns anos atrás, é difícil dizer. Mas é curioso: embora não possuísse jogadores tão badalados quanto uma Rússia, Azerbaijão, Ucrânia ou Armênia, desde início dos anos 2000 as seleções Olímpicas da China vinham conseguindo expressivos resultados – em 2006, por exemplo, a seleção masculina conseguiu a medalha de prata (vencendo gigantes como Geórgia e República Checa e Holanda).

Ano passado, definitivamente, o gigante acordou: a China não só foi a vencedora da 41ª edição das Olimpíadas de Xadrez – que aconteceu na cidade norueguesa de Tromso – como foi a única seleção a terminar a competição invicta – cedendo apenas três empates: para Rússia, Holanda e Ucrânia. Ou seja: uma vitória incontestável. (Sobre isso, veja o seguinte artigo do Blog da Academia, aqui). Aliás, desta vez, não sem “grandes” nomes (a ironia foi inevitável): Ding Liren, Li Chao, Wang Yue, Wang Hao e Yu Yangyi. E nem podemos esquecer a melhor jogadora da atualidade: a nova rainha do xadrez, Hou Yifan – para conhecer melhor a fantástica jogadora, leia o seguinte artigo de nosso blog aqui. A propósito, hoje em dia, oito enxadristas chineses estão entre os 50 melhores do mundo.

Mas, enfim, já naquela época, chamava atenção o jovem Wei Yi – e sobre ele disse, naquele momento, o GM Rafael Leitão:

“Dos seus talentos individuais, dois deles são particularmente impressionantes, em minha opinião. O jovem Wei Yi, nascido em 1999, já tem 2668 de rating. Eu o vi em ação durante a Copa do Mundo em Tromso 2013, quando eliminou Nepomniatchi e Shirov, parando apenas no desempate contra “Lenhador” Mamedjarov. Wei tem potencial para ser campeão do mundo.”

O “segundo” talento era Yu Yangyi que, naquela olimpíada, teve uma performance de mais de 2900 – e hoje, evidentemente, não é mais um talento, mas uma realidade.

“Wei tem potencial para ser campeão do mundo”. Será que este prognóstico do nosso GM está se concretizando? É o que, talvez, tenha apontado algumas partidas do torneio que aconteceu na cidade Haian Danzhou (que teve como campeão da edição do ano passado Ding Liren – atual número um da China).  Foram oito jogadores chineses – entre eles Ding Liren, Yu Yangyi, Wei Yi e Wang Yue – além do cubano Lázaro Bruzón (Cuba) e o indiano Krishnan Sasikiran. O campeão foi Wang Yue (2716), com 7,0 pontos em 9 possíveis.

Wang Yue é mais um integrante desta vitoriosa geração chinesa. Mas com um estilo sólido, sem chamar muita atenção, seu jogo é a antítese de Wang Hao, Ding Liren e, claro, Wei – todos ultra-agressivos. Só que a velha e boa técnica ainda ganha partidas. A partida de Wang Yue x Ding Liren é uma aula sobre como vencer a Índia do Rei. Veja as análises, aqui.

E a tabela seguiu com: Hua Ni (6,0); Liren Ding (5,5); Yi Wei (5,0); Xiangzhi Bu (4,5); Yangyi Yu (4,5); Krishnan Sasikiran (4,0); Lázaro Bruzon (3,5); Shanglei Lu (2,5); e Chen Wang (2,5).

Mas, voltando a Yi Wei, o jovem chinês de apenas 16 anos… Ele venceu, na segunda rodada, uma das partidas mais espetaculares dos últimos anos ao empreender uma caçada mortal ao rei do cubano Bruzon. Embora o tema de sacrifício em f7 seja bastante temático, e a posição possivelmente já estudada “de casa”, mesmo assim, a partida é linda. Chamam a atenção alguns lances “calmos” que são a chave da perseguição ao rei preto – incluindo o lance final. (E já fica a dúvida: para quem vai o título de melhor partida do ano até agora? Wei x Bruzon ou Anand – So? Alguma outra?). Veja as análises desta obra-prima do século XXI, aqui e reveja o vídeo gratuito no qual o GM Rafael Leitão analisa a partida entre Anand e So, clicando aqui.

 [22. Tf7! O gigante acordou?]

 

Outra acachapante vitória do prodígio Wei Yi foi frente a Cheng Wang, na penúltima rodada – Veja, novamente, aqui (e se depois de tudo isso você quiser saber mais sobre Yi, recomendamos a matéria da última revista New In Chess – que traça um relato de sua trajetória. Para termos uma ideia, com apenas 9 anos de idade ele já morava em um centro de treinamento de alto rendimento – relatado lá em cima, no início desta notícia – longe da família. O sucesso não aparece por acaso…).

E agora? Será que a profecia de Napoleão está acontecendo? O Gigante acordou – e é Wei Yi que está montado nas costas da fera?

 

Resultados: Torneio de Danzhou.

 

Escrito por Equipe Academia de Xadrez Rafael Leitão 12.07.2015.

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