Xadrez, Somos Realmente Uma Família?

Xadrez, Somos Realmente Uma Família?

Xadrez, Somos Realmente Uma Família?

“Gens una sumus” é o lema da Federação Internacional de Xadrez. O termo em latim significa algo como “somos uma família” e tenta retratar a união dos enxadristas pelo mundo. Mas, na prática, em alguns casos, o clima harmônico é esquecido por questões econômicas, religiosas, históricas e políticas.

Em 2016, a Olimpíada de Xadrez foi realizada em Baku, no Azerbaijão, e a equipe da Armênia, campeã em 2006, 2008 e 2012, se recusou a participar do evento. O Grande Mestre brasileiro Krikor Sevag Mekhitarian possui ascendência armênia e, na ocasião, também se negou a ir ao Azerbaijão.

Os dois países possuem conflitos históricos e a declaração do atual líder do Azerbaijão, o ditador Ilham Aliyev, tornou a situação ainda mais complexa. Para Aliyev, “a Armênia é a inimiga número um de todo o povo azerbaijano”. Você teria coragem de pisar em um país onde seria reconhecido como um inimigo?

 

Campeonato Mundial de Rápido e Blitz

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O campeão mundial de xadrez clássico, Magnus Carlsen, também está na Arábia Saudita

 

A história da Olimpíada de 2016 é apenas um de diversos casos polêmicos. A situação conflituosa mais recente é a do King Salman World Rapid and Blitz Championship 2017, realizado entre os dias 26 a 30 de dezembro, no Apex Convention Center, em Riad, na Arábia Saudita.

Isso mesmo, o Campeonato Mundial de Rápido e Relâmpago vem com o nome de Salman bin Abdulaziz al-Saud, o Rei da Arábia Saudita. Lembrando que em 2016, o xadrez foi proibido no país. Na ocasião, um líder religioso local deu sua opinião sobre o jogo: “Faz do pobre um rico, e do rico um pobre. Cria hostilidade e faz perder tempo”.

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King Salman

 

O Mundial de Rápido e Blitz é o primeiro torneio de xadrez a ser realizado no país. De fato, é até louvável o fato da FIDE conseguir reverter uma rejeição tão grande e ainda conseguir 2 milhões do dólares para a premiação, sendo 1,5 milhão para os torneios abertos e 500 mil dólares para os torneios femininos.  Sem dúvida uma premiação espetacular – quase 350% acima do valor disponível na edição anterior.

Até aqui, tudo ótimo. Arábia Saudita abrindo as portas e injetando milhões de dólares no xadrez. Por tal quantia, estampar o nome do rei no nome do mundial não parece um sacrifício tão grande. No entanto, nem tudo são flores e o evento está cheio de polêmicas.

 

Israelenses de fora

A Arábia Saudita simplesmente não concedeu os vistos para os enxadristas de Israel. Ao todo, sete enxadristas israelenses foram proibidos de disputarem a competição. Entre eles, destaque para o vice-campeão mundial em 2012, Boris Gelfand. A justificativa é a de que a Arábia Saudita e Israel não possuem relações diplomáticas. Os israelenses reclamaram e pedem uma indenização da FIDE.

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Boris Gelfand dando simultânea para líderes israelenses em 2010

 

Problemas com enxadristas do Irã e Catar

Inicialmente, os enxadristas do Irã e do Catar também tiveram os vistos negados. Depois, os vistos foram concedidos, mas os enxadristas iranianos foram aconselhados a jogar sob a bandeira da Federação Internacional e não sob a bandeira do Irã. Por fim, aparentemente tudo foi resolvido, mas na dúvida, nenhum enxadrista de ambos os países apareceu no torneio.  Vale lembrar que Irã e Catar possuem relações precárias com a Arábia Saudita.

 

Trajes femininos

Na Arábia Saudita as mulheres são tratadas com rigor, para dizer o mínimo. Entre as regras, as mulheres não podem mostrar o corpo em público e não podem andar desacompanhadas nas ruas. Essas questões causaram diversas polêmicas entre as enxadristas participantes do mundial feminino.

Tanto que a Campeã Mundial de Rápido e Blitz 2016, Anna Muzychuk, da Ucrânia e sua irmã, a também GM Mariya Muzychuk, boicotaram o evento. No Facebook, Anna comentou sua decisão.

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Anna Muzychuk com as medalhas dos títulos de rápido e blitz de 2016

 

“Em alguns dias vou perder dois títulos mundiais – um por um. Só porque decidi não ir à Arábia Saudita. Não vou jogar sobre as regras de alguém, não vou usar abaya, não vou sair apenas acompanhada e não me sentirei uma criatura secundária. Há exatamente um ano ganhei estes dois títulos e era a pessoa mais feliz do mundo, mas desta vez sinto-me muito mal”, comenta a enxadrista.

Anna Muzychuk também falou dos prejuízos financeiros da decisão.

“Estou pronta para defender meus princípios e não ir ao evento, onde em cinco dias eu esperava ganhar mais do que eu ganharia em uma dúzia de eventos juntos. Tudo isso é irritante, mas o mais perturbador é que quase ninguém se importa. É um sentimento muito amargo, mas não é suficiente para mudar a minha opinião e os meus princípios. O mesmo se passa com a minha irmã Mariya – e estou muito feliz por partilharmos este ponto de vista. E sim, para aqueles que se importam, nós voltaremos!”.

A FIDE conseguiu negociar com os organizadores e as mulheres não foram obrigadas a usar a Abaya ou a Hijab. No entanto, o código do torneio afirma que as mulheres têm de usar um terno azul escuro ou preto, com camisas brancas de pescoço longo. Já os homens deverão usar os mesmo trajes, porém, o pescoço pode ser aberto ou com uma gravata.

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Mulheres no mundial de rápido e blitz

 

Repercussão mundial

Os problemas do evento tornaram-se notícias em jornais ao redor de todo o mundo. Destaque para a declaração do GM Hikaru Nakaruma, também ausente no evento, publicada no jornal The New York Times.

“Organizar um torneio de xadrez em um país onde os direitos humanos básicos não são valorizados é horrível. O xadrez é um jogo onde todos os diferentes tipos de pessoas podem se unir e não um jogo em que as pessoas estão divididas por causa de sua religião ou país de origem”, comentou Nakamura.

 

Em sua opinião, levando em conta os dois milhões de dólares, a FIDE errou em realizar o evento na Arábia Saudita? Deixe seu posicionamento nos comentários.

 

Imagens: Site Oficial

 

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Comments ( 16 )

  • JJ2700

    Assunto muito complexo este! O ideal seria que a FIDE negociasse de forma que todos os jogadores pudessem ficar isentos dessas regras “locais”. Mas isso é quase pedir o impossivel, pois, quando se trata de questões politicas, religiosas, ideológicas ou crenças o ser humano se transforma em algo irracional.
    Esse mundial se caracteriza por duas vertentes: Capital x Principios!
    Se realmente a FIDE for uma familia, o Campeão Mundial e/ou o Campeão do Torneio deveria expressar sua opinião sobre o local escolhido para o torneio lamentando a ausencia daqueles que foram impedidos de comparecer.

  • Wagner marinho

    a verdade é que dinheiro não aceita desaforo..uma minoria tem principios, mais a maioria se rende a grana alta… se fosse uma copa do mundo de futebol, eles obrigariam os homens a jogarem como? e se fosse uma copa do mundo feminina? enfim, acho que a culpa não é da FIDE.. a maioria dos jogadores não ve problema.. ainda existem grandes nomes no mundial… infelizmente vivemos no mundo que quem pode mais chora menos…

  • Darlon

    Acho que estão fazendo tempestade em copo dágua . Participaram do evento mestres provenientes de todas as culturas do mundo, e não tiveram problema. Assim como as outras culturas, a islâmica tem direito de existir.

    • Thiago

      Os israelenses foram proibidos de ir, leia a matéria antes de escrever bobagens.

      • Rodrigo

        Verdade! o Cara não lê, fala bobagem, acho que nem se deu conta do que está falando. Alguem da FIDE, deve ter levado uma bolada para realizar esse torneio lá, tantos lugares para realizar o torneio e eles escolhem justamente um lugar tão problemático.

    • Artur Gavieiro

      Todas as culturas têm o direito de subsistir mas nenhuma tem o direito de se impôr às outras. É aí que está o erro da Arábia Saudita e por essa razão a FIDE não deveria permitir que um torneiio desta envergadura se realizasse naquele país.

  • Leandro

    Capitalismo é isso, todos se vendem e todos protestam contra o poder do capitalismo, afinal temos liberdade.
    FIDE errou e bem que gostaria que TODOS os jogadores boicotassem essa coisa
    Mas o fato é que a Arábia percebeu que o fraco aqui é o dinheiro
    aqui se topa tudo por dinheiro mesmo

  • Valério

    É boa a polêmica. Ajuda a divulgar o Xadrez. Finalmente os sonhos de Lasker, Alekhine, Fischer e outros estão se tornando realidade. Boas premiações são fundamentais para o aparecimento de talentos.
    As “primadonas” que optem pelo que entenderem ser o certo. Torço para que um dia consigam, organizadores e patrocinadores, separar as coisas (religião/origem e esporte/arte).

  • João Norberto

    Conseguir realizar um evento dessa magnitude em um país tão atrasado em termos de direitos humanos universais, já foi uma grande façanha da Fide. As pessoas daquele país que gostam de xadrez, merecem este presente.

  • Jaime Stone

    Sim o pais cede não pode dar os mesmos direitos aos seus participantes, não deveria ceder um mundial de esse calibre, ao final ” Gens una sumus “

  • Lima

    Em linguagem de bordel: “dinheiro na mão, calcinha no chão; dinheiro não viu, calcinha subiu.”
    Eu fico muito incomodado com a imposição dessas regras a pessoas estranhas à cultura local. Os jogadores ocidentais não compartilham desses valores, não deveriam ser submetidos a esses constrangimentos. Os sauditas que preservem sua cultura do jeito que querem, mas quando sediam torneios internacionais – qualquer que seja o esporte – deveriam considerar regras de convivência cosmopolitas e deixar as pessoas em paz.

    • Alex

      Concordo com vc. Mas o código de vestimenta final não teve a ver com cultura local. Há tempos que se discute no xadrez um código de vestimenta para competições tidas como campeonatos mundiais. Vide o que aconteceu ano passado na copa do mundo. O fato das mulheres poderem jogar com a cabeça descoberta foi um grande avanço e, pelo que vi na entrevista, estavam todas satisfeitas por terem participado e ganhado seu dindin.

  • Claudio

    Acho que o esporte seja xadrez, futebol, ou qualquer outro deveria aproximar os povos mesmo com ideologias diferentes, mas a realidade é bem outra realmente….

  • Draggom

    Jogar xadrez é uma coisa, quando se esta em outra cultura, tem que respeitar os costumes locais, é muito mimi mi, vai jogar um torneio em Cuba e grito fora Raul Castro para ver o que acontece.

  • João Almeida

    Se realizarmos um torneio mundial feminino no Brasil, rio de janeiro, por exemplo, e convidar as mulheres da Arábia Saudita, elas aceitarão jogar apenas de Bikini? Afinal temos que defender nossa cultura :v
    Mas não seria ridículo? Então, acho que se vamos jogar lá, devemos usar os trajes que nossa cultura permite… se eles vem jogar aqui, deveriam ter a liberdade de escolher os trajes que a cultura deles permite… simples assim.

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