Morozevich e Bachmann brilham em Barcelona

O ano era 1994 e o mundo do xadrez ainda se embebecia de Kasparov e Karpov. Contudo, um jovem de apenas 17 anos, de olhar desperto e agudo, roubou com um pouco a cena naquela ocasião. O motivo: 9,5 pontos em 10 possíveis no fortíssimo torneio internacional de Lloyds Bank Open, em Londres.

Este jovem era Alexander Morozevich.

E, em seguida, outros feitos foram se juntando a este: em 1997, no Campeonato Mundial, eliminou o antigo Campeão Vassily Smyslov; em 2001 foi o primeiro jogador a derrotar o recém-coroado Campeão Mundial Vladimir Kramnik; em 2006 venceu o forte torneio internacional de Pamplona com uma performance de 2951 (!); é também conhecido por sua habilidade nas rápidas e, talvez, por ser um dos melhores do mundo no xadrez às cegas (por exemplo, ele venceu três vezes o Amber Chess Tournament e por 4 vezes a disputa às cegas da competição); bicampeão russo, em 2007 levou o Campeonato vencendo as últimas seis rodadas restantes; e falando em Campeonato Russo, dois anos antes, em 2005, Morozevich acabou ficando apenas um ponto atrás do Campeão, Sergei Rublevsky. Detalhe: Morozevich perdeu uma rodada por K.O., pois acabou dormindo demais (as más línguas dizem que ele havia bebido um pouco a mais na noite anterior. Mas isso já é boato…).

 

Alexander Morozevich

[Morozevich enfrentando Csba Balogh, no Magistral Cidade de Barcelona. “Moro”: Um exótico gênio romântico]

 

Morozevich, que em julho de 2008 alcançou o recorde pessoal de 2.788 pontos de rating FIDE, e o segundo lugar no mundo, faz parte do seleto grupo de exóticos gênios  do xadrez – você deve estar pensando que este grupo não é tão seleto assim. Releia o que eu disse: “exóticos gênios” e não só “exóticos” –, inclusive, daqueles que não consideram o xadrez a sua real vocação (embora não deixe claro qual seria essa então), ressaltando que joga apenas para testar seu intelecto (chegando a afirmar, numa outra entrevista, que nem mesmo gosta muito de jogar xadrez – devido ao desgaste e a tensão que o jogo ocasiona. Ele joga simplesmente porque é bom nisso!).

 

Alexander Morozevich

[Em julho de 2008, Morozevich alcançou o rating de 2.788 e o segundo lugar no mundo. Isso tudo porque ele não gosta muito de xadrez…]

 

Tudo isso para falar que nosso (anti)herói venceu o Magistral Cidade de Barcelona – que, evidentemente, aconteceu na própria cidade. De 4 a 8 de novembro. O evento, organizado pela Federação Catalã de Xadrez, teve outros eventos paralelos – como uma simultânea do próprio Morozevich para vinte tabuleiros (vencendo dezessete partidas, empatando duas e perdendo apenas uma).

 

axel Bachmann

[O paraguaio Axel Bachmann dividiu a primeira colocação com Moro]

 

“Moro”, para os íntimos, dividiu a primeira colocação com o GM paraguaio Axel Bachmann (que acaba de jogar o Ibero-Americano!). Bachmann, inclusive, venceu uma bonita partida posicional contra Morozevich na rodada final – essa partida será analisada nos próximos dias para a seção “partida do dia”. Contudo, como o critério de desempate foi o fantástico número de partidas disputadas com as peças negras, “Moro” ficou com a primeira colocação. Aliás, não basta ser um exótico gênio – é preciso ter sorte. Como na partida contra Hipolito Asis Gargatagli. Sobre ela, disse o nosso GM Rafael Leitão: “Ontem foi jogada uma das partidas mais incríveis que já vi. Quantos jogadores seriam capazes de reverter uma posição com torre a menos? Qual seria a colocação dessa partida em uma lista de maiores ‘enroladas’ da história?”. Veja as análises da partida clicando aqui.

Além da partida contra Hipolito Asis Gargatagli e Axel Bachmann, vale a pena ver a partida de Morozevich contra Balogh (primeira foto, lá em cima): apesar do empate, os golpes táticos, de ambos os lados, e a estratégia pouco comum de ceder o sacrossanto bispo do fianchetto do Rei valem o ingresso – a vitória contra Marc Narciso Dublan também é muito interesse e característica do jogo de “Moro”: inventivo e sempre para frente (que digam os peões de Torre)!

Comentário do GM Rafael Leitão: Gostaria de parabenizar meu amigo Axel por mais uma brilhante vitória. Ele é um dos jogadores mais talentosos da América do Sul e pode vencer até mesmo os melhores enxadristas do mundo. Além disso, é um dos grandes mestres mais simpáticos e humildes que conheço.

A classificação final:

 

magistrado barcelona

 

Vida longa a Morozevich e Axel!

 

Fonte: ChessBase.

 

Escrito por Equipe Academia de Xadrez Rafael Leitão 10.11.2015.

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