Grandes Torneios da História-Zurique 53

O xadrez mundial passou por diferentes disputas e foi, inclusive, palco para muitas questões políticas, especialmente a partir da metade do século XX. No Torneio de Candidatos Zurich 53 isso não foi diferente. Em um torneio longo e repleto de intrigas, com a Guerra Fria como pano de fundo, a KGB desempenhou algumas das jogadas mais importantes da competição.

Saiba mais sobre a organização do torneio, seu desenrolar e por que é considerado um dos grandes torneios da história do xadrez no post de hoje!

 

O torneio

Em 1953, a Suíça gastou cerca de 100 mil francos suíços para organizar o Torneio de Candidatos daquele ano, considerado um dos mais relevantes da história do xadrez mundial.

A principal característica do torneio foi o fato de ele ter sido disputado em turno e returno, o que o tornou um dos mais longos da história. Naquele ano, 15 competidores participaram do evento. As primeiras oito rodadas foram disputadas na cidade de Neuhausen am Rheinfall, e as restantes, em Zurique. O objetivo desse torneio era dar ao vencedor a oportunidade desafiar o campeão mundial (Botvinnik), além de um prêmio em dinheiro de 10 mil francos suíços.

 

A supremacia soviética

Nessa época, a União Soviética era um bloco relevante no panorama mundial e, graças ao seu regime, o xadrez era (e continua sendo) bastante popular por lá. Assim, a hegemonia na disputa foi visível: nove candidatos soviéticos disputavam o título.

Com uma atmosfera política carregada, o Torneio de Candidatos teve também um aspecto político: além dos soviéticos, havia, ainda, um participante norte-americano (Reshevsky) e, acontecendo em plena Guerra Fria, as disputas eram observadas ainda mais de perto. Como Reshevsky era um dos favoritos ao título, o clima era particularmente tenso.

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O desenrolar e as pressões políticas

De maneira geral, a disputa foi bastante acirrada durante a maior parte do torneio. Na décima primeira rodada, o norte-americano Samuel Reshevsky era quem liderava a disputa, o que colocou ainda mais pressão nos competidores soviéticos. Na décima terceira rodada, o norte-americano perdeu a liderança.

Já a segunda metade do torneio foi liderada por Vasily Smyslov, que estava apenas um ponto a frente de David Bronstein e Reshevsky. Em alguns momentos, inclusive, Smyslov e Rehesvsky estavam empatados. Isso fez com que diversas vezes a KGB, o serviço secreto soviético, interferisse no torneio ao dar ordens expressas a determinados jogadores para que combinassem o resultado das partidas. Em seu livro, Bronstein fala sobre a pressão que ele e outros candidatos sentiram durante boa parte do torneio.

Uma das histórias mais marcantes deste torneio foi uma das partidas entre Keres e Smyslov, disputada na reta final da competição. Keres estava atrás na tabela e precisava ganhar de qualquer maneira. As autoridades soviéticas, entretanto, estavam mais interessadas em garantir logo o título – e Smyslov estava na frente. Veio a ordem para que Keres, que estava de brancas, aceitasse empatar. O estoniano, um “gentleman” respeitado e admirado por enxadristas de todas as gerações e de todos os países, deliberou longamente sobre a questão, caminhando ao redor dos belos lagos da cidade suíça. De forma surpreendente, ele não cedeu às pressões e decidiu lutar pelo título do torneio. Veja o que aconteceu nesta dramática partida.

 

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O vencedor

Na trigésima rodada, o vencedor foi Smyslov, que conseguiu o título por uma diferença de dois pontos. Graças a isso, ele teve o direito de disputar o Campeonato Mundial de Xadrez de 1954 contra o então campeão Mikhail Botvinnik. Em uma dramática disputa, que terminou empatada em 12 a 12, Botvinnik manteve o título – naquela época o empate favorecia o campeão mundial. Smyslov viria a destronar Botvnnik em 1957, mas o patriarca do xadrez soviético recuperou o título em 1958. As partidas destes grandes jogadores são até hoje estudadas e reverenciadas. Veja aqui outra importante vitória de Smyslov contra Keres neste torneio, analisada pelo GM Rafael Leitão.

 

 

O Torneio de Candidatos Zurich 53 tem importância histórica não apenas graças às partidas brilhantes que originou ou pelo seu resultado, mas também porque mostra o panorama político da época e um tipo de torneio que já não existe mais. Além disso, a competição originou um dos melhores livros já escritos sobre xadrez, o clássico “Ajedrez de Torneo”, de David Bronstein, que foi um dos participantes. Com isso, até hoje esse torneio se mantém como um dos mais fortes da história e uma das maiores fontes de aprendizado para enxadristas de todos os níveis.

Gostou de conhecer em detalhes esse importante torneio? Veja também a história de outro grande torneio, o Interzonal Petrópolis 1973!

 

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4 Respostas a “Grandes Torneios da História-Zurique 53”

  • Gustavo Brandão Messenberg

    Além do livro de Bronstein, Najdorf também escreveu um livro comentando as partidas do Torneio de Zurich 1953. Seu analista nesse evento foi Julio Bolbochan, Najdorf fez catorze pontos e meio. Smyslov ganhou com 18 pontos, seguido por Bronstein, Keres e Reshevsky que somaram 16 pontos. O Torneio teve 15 participantes sendo 9 soviéticos. Pelo que se sabe atualmente os soviéticos deveriam "endurecer o jogo" contra Reshevsky. A partida do primeiro turno entre Keres e Reshevsky terminou empatada, e é a mais violenta do Torneio. Bronstein revelou em seu livro "Aprendiz de Brujo" que no primeiro turno autoridades soviéticas ordenaram-lhe que ganhasse de Reshevsky (ele ganhou no turno e returno). Sem tirar o mérito dos fortíssimos jogadores soviéticos, há que se reconhecer que Reshevsky em situações normais teria mais chances.

    • Joca

      Sobre o livro do Najdorf, ele, inclusive, chegou a acusar o Bronstein de plágio!
      O livro é mais ameno e conta os bastidores do grande torneio, em dois volumes.
      Não entendi o comentário "em situações normais teria mais chances", sobre o
      Reshevsky!?

  • Carlucio

    Acho esse torneio sensacional , outro dia fiz uma sugestão pro Rafael fazer um video com analises atuais de todas as partidas desse torneio. Analisar partidas onde não houve influência da " máquina", fruto apenas da inteligência humana. Eu compro esse video.

  • G erald O

    Olá! Eu sou um apaixonado pelo Xadrez, sem talento... encontrei vossa página via outra no Facebook!
    Gostei da narrativa e principalmente pelos ligações a que remete.
    Parabéns!
    Vou ver possibilidade de assinar vossa página.
    Sucesso sempre!

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