A Confusão de Bobby Fischer no Interzonal de 1967

O Interzonal de 1967, realizado em Sousse, na Tunísia, é um dos torneios mais controversos da história do xadrez. A competição, a primeira organizada pela FIDE na África, ficou marcada pelas polêmicas típicas da carreira de Bobby Fischer

Entre os 23 participantes, destacam-se: Fischer, Larsen, Korchnoi, Geller, Gligoric, Portisch e Reshevsky, além do prodígio brasileiro, Henrique Mecking, na época com apenas 15 anos. Os argentinos Oscar Panno e Julio Bolbochán não puderam participar do torneio: o primeiro anunciou a ausência a poucos dias do início. Já o segundo adoeceu e foi retirado nas rodadas iniciais.

Tranquilidade e Dominó com os Soviéticos

Inicialmente, tudo ocorria bem. Bobby Fischer foi um dos primeiros a chegar à cidade e era visto sorridente. Até jogou dominó com os jogadores e treinadores soviéticos. A única pessoa com que Fischer não se relacionava era o seu compatriota Samuel Reshevsky, mas todos estavam acostumados com isso.

Por questões religiosas, Fischer e Reshevsky pediram para não jogar no período entre a noite de sexta-feira até às 19h do sábado, o que foi aceito pela organização. Fischer também foi dispensado de jogar nos dias com festividades religiosas. O torneio foi disputado entre 15 de outubro e 16 de novembro. De fato, não são poucas as datas religiosas nesse período.

 

Reclamações e Início Avassalador 

Quando o torneio começou, Fischer reclamou da iluminação e do barulho, mas esses contratempos não foram suficientes para atrapalhar sua brilhante campanha: cinco vitórias e dois empates nas sete rodadas iniciais. Fischer não jogou a oitava e a nona rodada pelas questões religiosas explicitadas e suas partidas foram adiadas. 

 

A Polêmica do Calendário

A situação ficou crítica quando Fischer se atentou ao calendário do torneio e percebeu que, devido aos reagendamentos, iria disputar quatro partidas em quatro dias consecutivos e, depois de um dia de folga, mais cinco partidas em cinco dias.  Devido a essa agenda extenuante, Fischer queria mais uma folga e ameaçou abandonar o torneio.  

Um assessor de imprensa da embaixada americana em Túnis foi ao local para convencer Fischer a prosseguir na competição. O assessor apelou para o nacionalismo ao argumentar que o enxadrista era um representante dos Estados Unidos, porém, Fischer replicou duramente: “não represento ninguém aqui senão a mim mesmo”.

 

O Primeiro W.O e o Retorno Triunfal

A reclamação não encontrou apoio e Fischer partiu para Túnis, capital da Tunísia, a cerca de 140 quilômetros de Sousse. Bobby perdeu por ausência a partida contra o jovem russo, Aivars Gipslis, na 10ª rodada. 

A próxima partida era o clássico americano contra Samuel Reshevsky. Quando o relógio foi acionado, ninguém acreditava que Fischer iria aparecer. Depois de 53 minutos, sete antes do W.O ser confirmado, Bobby Fischer apareceu sorridente. Um verdadeiro choque para todos, inclusive para Reshevsky que perdeu sem luta. 

 

Fischer x Reshevsky, match de 1961

 

Reshvesky ficou irritado e protestou. Quando os árbitros deram a Fischer um memorando de conduta, ele não leu e rasgou na frente de todos. Sobre o seu retorno ao torneio, Fischer depois confirmou: “o presidente da Federação de Xadrez de Túnis, Sr. Belkadi, me prometeu um dia livre e por isso, continuei jogando”. Em relação ao jogo com Gipslis, a FIDE ficou de avaliar o caso e tomar uma decisão posterior. 

 

O Segundo W.O

Fischer jogou mais duas partidas no Interzonal de 1967: empate com Korchnoi e vitória com Byrne. Após dez partidas, Fischer queria uma definição sobre seu jogo com Gipslis e outra vez foi para Túnis. Como consequência, nova derrota por ausência, agora para Vlastimil Hort. 

O enxadrista expôs seu ponto de vista: “Se alguém se retira de um torneio antes de jogar a metade das partidas, seus resultados são anulados, porém, se o equador for cruzado, então todas as partidas posteriores serão consideradas derrotas. Eu já tinha jogado contra dois dos participantes soviéticos e, se me retirasse após a partida com Hort, então os rivais diretos, os iugoslavos, ganhariam um ponto sem jogar. E isso aconteceria em um torneio em que cada meio ponto vale ouro. Por essa razão, pedi uma resposta sobre minha partida com Gipslis. Se tivesse que jogar com Hort e depois me retirar do torneio, isso seria jogar sujo com meus colegas soviéticos. Se a derrota contra Gipslis fosse confirmada, de nenhum modo seguiria jogando”. De fato, a partida com Hort seria a 11ª das 22 partidas que Fischer deveria disputar. 

 

Trecho entre Sousse e Túnis foi marcante na carreira de Bobby Fischer

 

Em uma reunião especial entre os jogadores, Reshevsky pediu a eliminação do compatriota, porém, não encontrou o suficiente apoio. A próxima partida de Bobby Fischer deveria ser jogada contra Bent Larsen. Apesar das duas ausências, a organização queria manter o enxadrista no torneio e propôs que Fischer assinasse uma declaração aceitando o cronograma e as duas derrotas. 

Fischer avaliou o caso da seguinte forma: “Depois do segundo W.O, entreguei ao comitê organizador uma nota que informava a minha retirada do torneio. A embaixada dos Estados Unidos em Túnis interferiu e convocou uma reunião entre os jogadores. Então, decidiram as condições para eu poder continuar no torneio. Exigiram-me uma garantia por escrito que me obrigava a concordar todas as decisões. Isso estava fora de questão, não sou um criminoso e nunca assinarei tais condições. Vocês sabem o que estão me pedindo? Eu, Bobby, admitir que perdi duas partidas por ausência? Nem por um milhão de dólares”.

 

A Última Chance 

Na próxima rodada Fischer deveria enfrentar Bent Larsen. O relógio foi acionado no horário marcado com a corriqueira dúvida em relação à presença de Fischer. O enxadrista também comentou esse momento: “Quando os arbítrios colocaram em marcha os relógios da partida com Larsen, eu ainda estava em Túnis. Para me convencer a regressar, o assessor de imprensa da embaixada americana, Sr. Johnson, foi ao meu hotel. Desde o começo da partida dispuseram uma linha direta Sousse – Túnis. Ligaram-me sem parar, todos tentando me convencer. O tempo ia passando. A hora decisiva (a última chance de voltar ao torneio), nervos, nervos, por fim, dez minutos antes de registrar meu terceiro W.O, pedi aos árbitros que postergassem a partida pelo tempo necessário para chegar a Sousse. Ainda não sabia qual seria minha decisão final, mas pensava que deveria fazer algo. Tentaram convencer o Larsen a postergar, mas ele não aceitou. Assim, Larsen me impediu de jogar o Interzonal (e tirou a possibilidade disputar o Campeonato Mundial). Além disso, trataram de converter-me em uma espécie de delinquente do xadrez”.

Fischer abandonou o torneio com sete vitórias e três empates

Larsen Campeão

Sem Fischer, o torneio continuou e Bent Larsen foi o campeão com 15.5 pontos em 21 rodadas. Korchnoi, Geller, Gligoric, Portisch e Reshevsky também garantiram vaga no Torneio de Candidatos. Henrique Mecking foi o décimo primeiro colocado com sete vitórias, seis derrotas e oito empates. 

 

Larsen ficou com o título do Interzonal 1967

 

Mesmo com as três derrotas por ausência, Fischer certamente se classificaria para o Torneio de Candidatos. Larsen foi campeão com três derrotas e cinco empates.  Após essa trágica história, Fischer só voltou a disputar um torneio de elite em 1970, quando iniciou sua brilhante saga pelo título mundial de 1972.

O medo de não estar pronto para um duelo com Spassky naquele ano é uma das teorias da conspiração que tentam justificar as ações de Fischer em Sousse. O que você pensa a respeito? Deixe sua opinião nos comentários.

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Referências Bibliográficas: 

Meus Grandes Predecessores, Garry Kasparov, Volume IV. 

Interzonal Sousse 1967, ed. by Walter Kühnle-Woods (Schweizer Schachdienst, Zürich 1967. 94 pp). Disponível em www.chessgames.com/perl/chess.pl?tid=79225.

4 Respostas a “A Confusão de Bobby Fischer no Interzonal de 1967”

  • PAULO CABRAL

    Pela performance de Fischer neste interzonal, é claro que ele estava preparado para jogar contra qualquer jogador do mundo! Spassky não era tão superior aos participantes do torneio, logo Fischer não tinha o que temer. Aliás, o campeão do mundo na época era Tigran Petrosian e não Boris Spassky.

    • Hélio

      Concordo plenamente !

  • Hélio

    Fischer , Sempre Fischer , Amado e Odiado, Um dos Melhores Enxadristas do Mundo, Ganharia de qualquer participante, se quisesse Jogar, tinha seu Estrelismo compreendido, Hoje Brilha no Céu, Robert James Fischer, A Lenda Continua !

  • Henrique Diaz Kratz

    Bobby Fischer foi um GM campeão mundial que em sua época não tinha adversários a altura. Assim como o Magnus Carlsen hoje em dia.

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