Grandes Enxadristas: Conheça a História de Wilhelm Steinitz

Nos dias atuais qualquer enxadrista de força mediana reconhece a importância dos seguintes conceitos: vantagem de desenvolvimento, mobilidade das peças, domínio do centro, par de bispos, segurança dos reis e estrutura de peões. Esse conhecimento, banal para o século XXI, tinha sua relevância questionada no final do século XIX. Alguns enxadristas interpretaram de forma equivocada o legado das partidas de Morphy e Anderssen e acreditaram que um bom jogador deveria apenas atacar, atacar e atacar.

 

 

Colocar sérias dúvidas sobre a necessidade de atacar a qualquer custo foi a grande contribuição de Wilhelm Steinitz para o xadrez. O primeiro campeão mundial oficial da história foi capaz de conceituar as características posicionais e descobrir que os brilhantes ataques apenas tinham êxito porque a defesa era débil.  Como consequência, Steinitz elevou o nível da defesa e criou o princípio da acumulação de pequenas vantagens. Em outras palavras, deu início ao xadrez moderno.

 

Surge uma Lenda

Wilhelm Steinitz nasceu no ano de 1836 em um gueto de Praga, na República Tcheca. Era o nono de treze irmãos. Sua família tinha um comércio de ferragens. Aprendeu a jogar xadrez assistindo as partidas do pai. Após terminar o estudo secundário, mudou-se para Viena, onde começou a estudar engenharia. Enquanto, em Londres e Paris, Anderssen e Morphy estavam no ápice da fama, Steinitz era apenas um estudante pobre que ganhava a vida apostando no xadrez em um café vienense.

O xadrez cativou tanto Steinitz que o fez abandonar os estudos de engenharia. Em pouco tempo, já era o melhor jogador de Viena. Quanto tinha 26 anos, foi indicado para o Torneio de Londres de 1862, onde se estabeleceu após a competição.

 

Primeiros Embates

Após alguns êxitos iniciais em Londres, logo os ingleses organizaram um match entre Steinitz e Anderssen. Como curiosidade, o campeão recebeu 100 libras e o perdedor 20 libras. Em 1866, Steinitz derrotou Anderssen por 8×6. Mesmo com a vitória, o mundo do xadrez demorou a conceder a Steinitz a reputação de melhor enxadrista do mundo.  Mesmo sem jogar desde 1859, Morphy ainda era considerado o melhor de todos. Ainda em 1866, Steinitz derrotou Henry Bird por 9,5 x 7,5. Porém, em 1958, Morphy havia derrotado Bird por 10.5 x 1.5. Para Anderssen, “Morphy poderia oferecer um peão para Steinitz e ainda jogar de pretas”.

Steinitz ainda venceu mais dois importantes confrontos que realçaram sua fama: 9×3 contra Zukertort (1872) e 7×0 em BlackBurne (1876). Depois do match com BlackBurne, Steinitz ficou seis anos sem disputar competições relevantes. O enxadrista ganhava a vida como comentarista da revista The Field, além de exibições às cegas e simultâneas.

Quando Steinitz retornou aos tabuleiros em 1882, Zukertort havia melhorado muito. De fato, Zukertort venceu o Torneio de Londres (1883) com boa margem sobre Steinitz. Com Morphy cada vez mais distante, pairava uma dúvida, quem era o melhor enxadrista do mundo? Os ânimos ficaram ainda mais acirrados quando Steinitz foi despedido da revista The Field e Zukertort foi contratado meses depois. Sem trabalho, Steinitz emigrou para os Estados Unidos.

 

Críticas a Morphy

Depois de alguns anos na América, Steinitz fazia exibições em apenas uma cidade, pois submeteu o jogo de Morphy a uma crítica destrutiva. Steinitz justificou sua opinião dura sobre o gênio americano. “Só uma crítica honesta e imparcial conduz ao objetivo. Lamentavelmente, muitos consideram um crítico como um inimigo, quando deveriam ver nele um guia até a verdade”.

O veredito de Fischer, quase um século mais tarde, também foi favorável a Steinitz. “Entendia mais que Morphy sobre a importância das casas no tabuleiro e contribuiu muito mais para a teoria do xadrez”.  Já Alekhine afirmou ter aprendido muito mais com Steinitz do que com qualquer outro mestre, porém, “é impossível estar de acordo com suas impressões sobre o jogo de Morphy”. De fato, é uma pena para a história do xadrez que Steinitz e Morphy nunca tenham se enfrentado.

 

Campeão Mundial

Morphy faleceu em 1884, enquanto Steinitz e Zukertort negociavam as condições do match pelo Campeonato Mundial. O match aconteceu em 1886, nas cidades de Nova York, Sant Louis e Nova Orleans. Cada enxadrista recebeu dois mil dólares pelo confronto.  O ritmo de jogo era de duas horas para os 30 primeiros movimentos, descanso de duas horas e mais uma hora a cada 15 jogadas. O duelo terminou com a vitória de Wilhelm Steinitz por 12.5 x 7.5.

 

Zukertort x Steinitz, 1886

 

Mikhail Chigorin

Wilhelm Steinitz disputou dois confrontos pelo Campeonato Mundial contra o russo Mikhail Chigorin. Em 1889, Steinitz derrotou Chigorin por 10.5 x 6.5. O duelo aconteceu em Cuba. Anos depois, Chigorin venceu duas brilhantes partidas por telégrafo contra Steinitz e o mundo mais uma vez colocou dúvidas sobre a superioridade de Wilhelm Steinitz. Steinitz e Chigorin voltaram a se enfrentar pelo Campeonato Mundial em 1892. Com 56 anos, Steinitz afirmou que seria seu último match. Novamente o duelo foi realizado em Havana, Cuba.

Steinitz manteve o título ao vencer por 12.5 x 10.5. Na última partida do match Chigorin esteve muito próximo de empatar o duelo, mas cometeu uma das maiores penduradas da história ao levar um mate elementar.

 

Chigorin x Steinitz, 1892

 

Chigorin era um enxadrista de ataque, um típico fã dos gambitos.  Na visão de Steinitz “o velho mestre da nova escola venceu o jovem mestre da antiga escola”.  A imprensa da época não se animou com o duelo, afinal, o mundo do xadrez ainda não havia entendido a forma de jogo de Steinitz, o propósito da escola moderna. Vale ressaltar que, entre os duelos com Chigorin, Steinitz disputou um match contra Gunsberg, durante os anos 1890 e 1891, na cidade de Nova York. Steinitz venceu por 10.5 x 8.5.

 

O Fim do Reinado

O reinado de Wilhelm Steinitz chegou ao fim em 1894, quando foi superado pelo jovem Emanuel Lasker por 12×7. Entre 1896 e 1897 o envelhecido Steinitz tentou mais uma vencer lutar contra Lasker, mas já não era mais possível. Nova derrota, desta vez por 12.5 x 4.5.

 

Steinitz x Lasker, 1894

 

Últimos Anos

Um mês depois da derrota com Lasker, Steinitz foi enviado para uma clínica psiquiátrica. Em um momento de lucidez, afirmou ter pedido para Lasker porque ele era realmente mais forte. Londres 1899 foi seu último torneio. Passou seus últimos dias na miséria em um asilo mental, na Ilha de Ward, próxima de Nova York. Chegou ao local de barco, com um tabuleiro de metal. Acreditava que produzia corrente elétrica movendo as peças. Imaginava-se jogando contra Lasker e até contra Deus. Estava seguro da vitória em ambas as ocasiões. Faleceu em agosto de 1900.

 

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* Artigo escrito pelo MF William Cruz

 

Referência Bibliográfica:

Garry Kasparov, “Meus Grandes Predecessores, volume 1”.

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