Magnus Carlsen Renova o Título de Campeão Mundial

Magnus Carlsen Renova o Título de Campeão Mundial

 

Campeões que Representam uma Época

Na primeira página do melhor livro de xadrez da história (Nota do GM Rafael Leitão: na opinião do redator) , “Meus Grandes Predecessores”, Garry Kasparov afirma: “Os melhores mestres de xadrez de cada época estão estritamente vinculados com os acontecimentos de sua sociedade. É evidente que as trocas culturais, políticas e psicológicas do momento repercutem em seu estilo e ideias de jogo”.

 

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Um exemplo emblemático é o do genial enxadrista francês e compositor musical François-André Philidor (1726-1795).  O nome de Philidor nos remete ao lema proclamado no século XVIII e que mudou o entendimento sobre o jogo: “os peões são a alma do xadrez”. Como constata Kasparov, “pode se ver aqui um presságio dos acontecimentos que se transformariam na Revolução Francesa”.

 

Magnus Carlsen e a Eficiência Célere

Seria possível conectar o estilo de diversos campeões mundiais com sua respectiva época, porém, isso cansaria o leitor. No momento, todos tentam entender como Magnus Carlsen, um jovem norueguês de 28 anos, domina o xadrez mundial há cinco anos e se manterá no topo pelo menos até 2020. Isso porque derrotou Fabiano Caruana (Estados Unidos), por 9×6 (6×6 no tempo normal e 3×0 nas rápidas) em um duelo finalizado no último dia 28 de novembro, em Londres.

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Fabiano Caruana sucumbiu com a pressão do tempo

 

O mundo atual é impaciente, apressado, onde não basta ser preciso, é necessário também ser rápido. Essa lógica se verifica em quase tudo, na comunicação, nos transportes, no trabalho, nos esportes e Magnus Carlsen é um símbolo dessa eficiência célere. Com muito tempo para pensar, Carlsen é preciso e está entre os melhores, porém, o norueguês não tem rivais à altura quando a partida se desenvolve em um ritmo veloz.

Com 12 empates em 12 partidas, o atual campeão mundial não foi superior a Fabiano Caruana nas partidas lentas, como também já não havia conseguido superar o russo Sergey Karjakin em 2016 ( 10 empates, uma vitória e uma derrota ). Porém, quando os duelos vão para os desempates em partidas rápidas, Carlsen não apenas mantém seu altíssimo nível, como o melhora, enquanto os seus grandes rivais se confundem e tomam decisões erradas nos apuros de tempo. Foi assim que Carlsen fez 3×1 nos desempates contra Karjakin e um espetacular 3×0 contra Caruana.

A sinceridade é uma característica de campeão mundial e este reconhece suas características: “Está claro que no momento não sou melhor que Fabiano no ritmo clássico e que devo trabalhar nisso durante os próximos anos”, reconhece o campeão.

 

Um dos Melhores da História

Magnus Carlsen ficará pelo menos sete anos com o status de campeão mundial. Trata-se de um período longo em tempos apressados, no qual as regras pré-estabelecidas não favorecem tanto o campeão mundial como em outros tempos.

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Lasker foi campeão mundial durante 27 anos

 

Emanuel Lasker foi o campeão mundial que manteve o título por mais tempo, 27 anos entre 1894 e 1921. No entanto, Lasker não defendeu o título nos seguintes períodos: 1897-1906 e 1911-1920. Em quase três décadas, Lasker disputou sete matches pelo Campeonato Mundial:

Lasker 12 x 7 Steinitz – 1894

Lasker 12.5 x 4.5 Steinitz – 1896 Rematch

Lasker 11.5 x 3.5 Marshall – 1907

Lasker 10.5 x 5.5 Tarrasch – 1908

Lasker 9.5 x 1.5 Janowski – 1910

Lasker 5 x 5 Schlechter – 1910

Lasker 5 x 9 Capablanca – 1921

Já Magnus Carlsen disputou o título mundial quatro vezes em apenas cinco anos. Sem dúvida isso torna seu feito ainda maior do ponto de vista histórico.

Carlsen 6.5 x 3.5 Anand – 2013

Carlsen 6.5 x 4.5 Anand – 2014 Rematch

Carlsen 9 x 7 Karjakin – 2016

Carlsen 9 x 6 Caruana – 2018

 

Você considera Magnus Carlsen um dos três melhores enxadristas de todos os tempos? Deixe sua opinião nos comentários.

 

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Imagens: Site Oficial.

 

9 Respostas a “Magnus Carlsen Renova o Título de Campeão Mundial”

  • Carlos Antonio Filho

    Carlsen entra no meu TOP 10 da história, com certeza!

    Meu TOP 3 seria:

    1. Capablanca
    2. Morphy
    3. Lasker

    Seguidos por Fischer, Kasparov, Karpov, Carlsen, Alekhine, Smyslov e Petrosian, completando assim o TOP 10! Obviamente, algumas posições poderiam ser trocadas, mas, a meu ver, mesmo retirando algum desses e colocando outro que ficou de fora como Botivinik ou Tal, não alteraria a essência da lista.

    Em suma, penso que o honroso 7º lugar na minha lista está totalmente condizente com o altíssimo nível que MC Alcançou.

    Abraços

  • Leo

    Ótimo insight a partir da ideia do Garry. Carlsen é, de fato, a pós-modernidade versão blink/bullet . Merece desenvolvimento a tese de termos campeões capturando o zeitsgeist .

    By the way, MC não é um dos melhores no clássico. É o melhor há, no mínimo, 7 anos. Por qualquer ângulo: rating, torneios importantes, títulos, força de jogo, etc. Veja: um ano em que não está no auge, joga 6 dos mais fortes torneios. Ganha 3 e fica em segundo nos outros 3. Em tempos de Leelas, Alpha, etc, é o mais dominante que se pode ter.

    Incrível como , fora da melhor forma, jogou 6 ou 7 ( !) sicilianas e não deu a mínima para a propalada preparação do Caruana. Genial ter insistido na Pelikan, tipo " show me your best , team Caruana"!

    E, lance que exclama triplamente: ter levado o match para o tie break. Sun Tzu aprovaria : " escolha o seu campo de batalha: uma guerra na montanha é diferente de uma guerra na cidade". Para enfrentar uma máquina, só outra. Zero emoção. 100% lógica no game 12. E no tie, devastador, MC mostrou que ainda é o cara a ser batido.

    Ps:" Zurich 53" >>>>>>OMGP !:-)

  • Reni Araujo

    Rafael,
    Brilhante análise sobre o Xadrez e os tempos atuais! Acho que o Carlsen ainda precisa ser mais mágico e se impor mais perante os seus adversarios (algo que o Kasparov e Fischer faziam muito bem). Atualmente ele está na minha lista dos 5, já a minha lista dos 3 estao Capablanca, Fischer, Kasparov. Achei o match arrastado e sem muita emoçao no ritmo tradicional, já nas rápidas existia expectativa para vitória dele, o que nao tira o brilhantismo do Carlsen como bem retratado no texto.

  • Ivan Tadeu Couto Rojas

    Estimado Rafael Leitão.
    Parabéns pelo seu belo trabalho!
    Permita-me, honrosamente, uma modesta discordância.
    Carlsen é o atual gênio do xadrez sem igual no momento atual.
    Vc percebeu que ele não perdeu nenhuma e massacrou Caruana nas rápidas?
    Ninguém consegue tal coisa na atualidade. Só ele.
    Não há páreo para ele essa é que é a verdade!
    Ele é tetra campeão, desde 2013 e continuará pelo menos até 2020.Seu artigo parece-me um tanto depreciativo para com o mais genial enxadrista do mundo não lhe dando o devido valor.
    Magnus Carlsen, o Grande!
    Ele merece todo respeito e reverencia.
    Nem Vishi, nem Kariakin nem Caruana. Não tem para ninguém!
    Quem será a próxima vítima?
    Com estima
    Prof. Ivan Tadeu Couto Rojas - PUC-SP

    • Rafael Leitão

      Olá, Ivan

      Obrigado por visitar o site e postar seu comentário. Apenas gostaria de deixar claro que o artigo não é da minha autoria: ele foi escrito pelo redator do site e não reflete minhas opiniões. Quando quer fazer um comentário deixo sempre claro no texto que é uma intervenção minha.

      Um abraço,
      Rafael

  • Carlei André Schuh

    Concordo com o texto...e no ritmo pensado não há muita diferença entre Carlsen e outros fortes GMS,mesmo que ele tenha seus méritos...cada um na sua época,mas admiro mais aqueles que não tinham os recursos que hj os super computadores oferecem...faz parte...!Gênios do tabuleiro...Alekhine,Boby Fischer,Kasparov e Anand!!

  • Luiz Gustavo Serpa

    Tenho a impressão que o próprio Carlsen discorda um tanto dos atuais elogios a ele. Dado que em uma das entrevistas durante o match, ao ser perguntado sobre seu jogador predileto do passado, ele escolheu a si mesmo, mas o Carlsen de quatro a cinco anos atrás. O campeão parece insatisfeito com seu nível de xadrez ultimamente. Afinal, são dois matchs inteiros que ele somente empatou e foi obrigado a partir para critérios de desempate. Kramnik também foi entrevistado e disse que o campeão precisa jogar sem medo de perder o título, pois ele deveria conseguir resultados superiores aos que consegue na defesa da coroa.

    Os dois últimos matchs foram interessantes, apesar da igualdade e do baixíssimo número de vitórias, mas para mim Carlsen ficou devendo a si mesmo. Ele tem potencial para muito mais.

  • Francisco Federico

    Considero que Magnus Carlsen é o melhor no xadrez atual. O fato de não ter superado seus adversários nos dois últimos matchs no ritmo lento reflete a boa preparação dos rivais pois Magnus é o "cara a ser batido". De fato ele não foi arrojado em determinados momentos, mas isso se deve à maturidade que ele atingiu e sua responsabilidade para com sua equipe. Embora tenha se notado que ele se empenhou em variar nas aberturas e várias vezes atingiram uma posição original em poucos lances. Num match de 12 partidas para uma decisão de xadrez mundial, uma derrota pode ser fatal. O xadrez está cientificamente muito explorado especialmente no tocante às aberturas. Atualmente, no xadrez de alto nível, as aberturas têm feito com que se entre no meio-jogo com relativo equilíbrio. Muitas vezes os primeiros 12 à 20 lances não são originais, ao contrário, são jogadas teóricas recomendadas pelas análises, hoje aprimoradas pelas engines, das quais os enxadristas têm profundo conhecimento. Portanto, muitas vezes, em muitas partidas terminadas com 50 ou 60 lances, 35 a 40 por cento dos lances não são expressões exclusivas do intelecto dos próprios enxadristas. Esse match, entre os melhores enxadristas da atualidade foi muito aguardado, mas a preparação apurada de ambos, com o apoio de suas respectivas equipes de geniais “segundos”, faz com que haja muito equilíbrio. Na minha visão sempre achei que nenhum jogador iria se atrever a tentar surpreender seu rival com um lance duvidoso e arrojado, sob o risco de sofrer um contra-ataque e consequente derrota que poderia não ser recuperada. Em virtude dessa estratégia, muitas vezes são jogadas as mesmas aberturas, com variantes previamente analisadas e preparadas para a disputa, com cada um preferindo se manter em “terreno conhecido” deixando para o oponente o risco de tentar “algo novo”. Em tal estado de coisas, acredito que ambos preferiam levar para o Tie-break. Em minha opinião, o formato da decisão por meio de partidas rápidas também não corresponde. Nem sempre o campeão do xadrez de ritmo lento é o campeão do xadrez “rápido”. São modalidades de xadrez diferentes. A própria FIDE organiza torneios distintos nestas modalidades. Adotar um Tie-break, comparo com uma decisão de um campeonato de futebol jogando uma partida de futsal. Um match de 12 partidas ou mais não corresponde mais como a melhor forma para definir o verdadeiro campeão. Trata-se de uma forma de disputa tradicional e saudosista, mas inadequada para o atual estágio do xadrez mundial. Entendo que o xadrez de elite ficou muito nivelado e tecnicamente explorado ao máximo. Cada jogador de elite tem "segundos" do mundo todo analisando opções novas de variantes para eles sem ser preciso um contato presencial. Sendo assim, penso que a melhor forma para definir um campeão mundial seria um formato parecido como do tênis. A FIDE poderia organizar vários torneios expressivos durante o ano, inclusive torneios de Grand Slam, rendendo ratings, melhorando a premiação em dinheiro com bons patrocinadores e o enxadrista número 1 de maior rating manteria o status de campeão.

  • Freitas Junior

    Como seriam os comentários anteriores se tivessem vislumbrado o que o Carlsen faria no Tata Steel Chess e no Grenke Chess 2019.
    Simplesmente fantástico!!!!!!!!

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