O Xadrez Precisa Mudar? Carlsen Acha Que Sim!

O Xadrez Precisa Mudar? Carlsen Acha Que Sim!

Em 1921, quando José Raúl Capablanca venceu Emanuel Lasker por 9×5 na cidade de Havana, os dois melhores enxadristas do mundo levantaram, pela primeira vez, um debate que ganha cada vez mais força com o passar das décadas: o grande número de empates é uma ameaça para o xadrez?

 

Capablanca e Lasker deram início ao debate

 

Lasker : “Novas Regras Serão Necessárias” 

Em 14 partidas pelo match, foram 10 empates e 4 vitórias para Capablanca. Depois da derrota, Lasker fez duras reflexões sobre o tema:

“A partida de xadrez está próxima da perfeição. Como consequência, os elementos do jogo e as incertezas estão desaparecendo. Em nossa época, se conhece muito (…). Agora todos os jogadores conhecem as melhores jogadas de abertura no Gambito da Dama ou na Ruy Lopez e se sentem em casa nessas posições. O encanto do desconhecido evaporou”.

Anos depois, o ex-campeão mundial voltou a tocar no assunto: “O xadrez não guardará seus segredos durante muito tempo. A hora fatal deste antigo jogo está próxima. Em sua forma moderna, este jogo morrerá por causa dos empates. A inevitável vitória da certeza e da mecanização marcará o fim do xadrez. Então, será necessário criar novas regras!”. 

 

Capablanca e os Tabuleiros de 100 e 192 Casas

Assim como Lasker, Capablanca também acreditava que o excesso de empates era um problema. “Em 10 ou 15 anos, qualquer bom jogador poderá empatar qualquer partida”.

E, para solucionar essa questão, o campeão mundial sugeriu que o tabuleiro tivesse 100 casas. Em 1929, dois anos depois de perder o título para Alekhine, aumentou sua proposta para 192 casas.

 

Alekhine Ridiculariza Mudanças

Se as mudanças pareciam inevitáveis para os dois campeões mundiais anteriores, para Alexander Alekhine isso não passava de uma grande piada. “Tais projetos sempre são postos em debate por jogadores que perderam o campeonato mundial”, ironiza o então campeão do mundo.

O match Alekhine x Capablanca foi realizado em 34 partidas, com 6 vitórias de Alekhine, 3 de Capablanca e 25 empates. 

 

Fischer Retoma Discussões

Após as evoluções conceituais do jogo entre os anos 1940 e 1980, Bobby Fischer voltou a sugerir mudanças para o xadrez em meados dos anos 1990, quando sugeriu o Xadrez 960, também conhecido como Fischer Random. 

 

Fischer propôs a modalidade em 1996

 

A modalidade tem por característica principal o sorteio da posição inicial das peças. Com o desenvolvimento da teoria de aberturas, muitas partidas são jogadas de memória durante 15, 20 ou até mais movimentos. A modalidade tenta quebrar essa tendência e estimular a criatividade dos jogadores desde o primeiro lance, o que deve reduzir o número de empates. 

Em 2019, foi realizado o primeiro Campeonato Mundial Oficial de Fischer Random. Wesley So venceu Magnus Carlsen na decisão. 

 

So x Carlsen – 2019

 

Kramnik Propõe Uma Alternativa

O ex-campeão mundial Vladimir Kramnik sugere outra possibilidade para revigorar o xadrez. Kramnik propõe que a regra do roque seja excluída do xadrez. Segundo o enxadrista, “a restrição ao roque fará com que os jogadores não confiem na teoria de aberturas atual. Todos serão forçados a pensar criativamente desde o início do jogo. Mesmo que um jogador queira forçar o empate, é quase impossível controlar tudo. Afinal, será muito mais difícil encontrar um lugar seguro para o rei”. 

Kramnik ainda deu sua opinião sobre o Fischer Random: “é um variante interessante, mas tem suas desvantagens. Parece faltar uma qualidade estética encontrada no xadrez tradicional e isso torna o jogo menos atraente para jogadores e espectadores”.

 

Carlsen Defende Mudanças

Tanto Fischer quanto Kramnik fizeram suas propostas após terem perdido o título (com a ressalva de que que Fischer desistiu de defender seu título). Ou seja, ambos também se encaixam nas provocações de Alekhine. Porém, desta vez, Magnus Carlsen tornou público o seu pensamento quanto ao futuro inglório do xadrez, em função do número de empates.

“Se não mudarmos algo fundamental, o xadrez clássico não vai mudar. Sei que é triste, mas temo que seja muito difícil encontrar outra solução para evitar que os melhores empatem muito”, afirmou Carlsen em entrevista para a revista norueguesa Norsk Sjakkblad.

Carlsen domina o xadrez mundial há uma década e até o momento, parece não haver um adversário capaz de lhe tirar o título em curto prazo. Vale ressaltar que, apesar da superioridade, Carlsen empatou 22 das 24 partidas clássicas dos últimos dois matches pelo Campeonato Mundial. 

De qualquer maneira, seria natural que o campeão mundial fosse contrário às mudanças, porém, não é o que acontece.

Carlsen é favorável ao Fischer Random e também defende as partidas rápidas no padrão inicial. “O Fischer Random é muito apropriado para as partidas lentas. Necessitamos muito tempo para jogar bem as aberturas”.

Porém, “dado que não é realista que as partidas lentas tenham êxito na internet, creio que o formato rápido é excelente, porque conserva o sabor da alta qualidade e não dura muito. É possível ver mais partidas em cada rodada e isso aumenta a emoção”, afirmou o campeão mundial. 

 

Comentário do GM Rafael Leitão: De todas as modalidades sugeridas para dar “novos ares” ao xadrez, a minha predileta é o Fischer Random. De todas as formas, é possível afirmar que tanto Lasker quanto Capablanca estavam errados em suas previsões: o xadrez clássico continua vivo até hoje e viverá muito tempo ainda. Mas certamente podemos explorar modalidades como o Fischer Random.

 

Em sua opinião, o xadrez precisa mudar? Se sim, como seria a nova regra?  Deixe sua opinião nos comentários.

 

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Texto escrito pelo MF William Ferreira da Cruz

Referências:

Meus Grandes Predecessores – Garry Kasparov, volume 1

La Pasión Del Ajedrez, El País – Leontxo Garcia, disponível em: https://elpais.com/deportes/2020/11/22/actualidad/1606069625_150916.html?rel=mas

 

10 Respostas a “O Xadrez Precisa Mudar? Carlsen Acha Que Sim!”

  • Rilton Conti

    Assim como o Fischer Randon não aposentou o xadrez com suas regras clássicas, penso que toda alteração é possível e não interfere no xadrez clássico! Tanto no match entre Carlsen e Karjakin como Carlsen e Caruana, algumas partidas que terminaram empatadas, poderiam ter acabado em vitória, se tivessem encontrado os lances corretos! O advento do Alphazero mostrou a inesgotabilidade que o xadrez ainda tem e que para "nós", os humanos, ele está muito longe de ser decifrado!

  • Henri

    Concordo com o Rilton, e o xadrez classico nao pode ser mudado oficialmente, e deveriam diminuir o tempo de reflexao para cada jogador, para termos menos empates,

  • Josias teles

    Acho interessante a ideia de não rocar. Mas, a proibição do roque, deveria ter um número determinado de lances, tipo: é proibido rocar antes de 30 lances. Com isso, haveria uma mudança significativa nas aberturas. E com as peças todas desenvolvidas, apontadas para o rei no centro, a dinâmica seria outra, e a questão seria; onde rocar? Se eu rocar agora, ajuda o meu rei? Me parece viável.

  • Wanderson Mendes

    Empates são decorrentes de dois jogadores que não queiram arriscar em uma variante que eles não conseguem ''visualizar'' com seguranças. Carlsen tem sorte que o desempate é nas rápidas, deveria ser na clássica com dever de vitória para as brancas.

  • Anderson

    Cheguei aqui de curioso e li até o final, excelente matéria!!!

    • Rafael Leitão

      Obrigado!

  • Anderson Soares

    São esportes diferentes, mas depois que no futebol vitória dava 3 pts e empate 1 pt creio que ajudou.

    • Breno f

      Acho válido demais. Isso levaria a se arriscarem e terem retorno risco benefício.

    • Vinícius

      Nossa que ideia simples e excelente

  • Chrystian

    O peão promovido deveria ser uma peça diferente, algo como "centurião", com os movimentos de cavalo e torre.

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